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Fogos de artifício colocam em risco a saúde e a segurança de cães e gatos durante São João e Copa do Mundo

Foto: Reprodução

Com a chegada dos festejos juninos e a realização dos jogos da Copa do Mundo, o uso de fogos de artifício e rojões volta a se intensificar em diversas cidades brasileiras. Embora sejam vistos por muitas pessoas como parte das comemorações, os estampidos podem representar um grave problema para cães, gatos e outros animais domésticos, causando desde episódios de estresse até complicações de saúde potencialmente fatais.

A preocupação dos especialistas tem fundamento biológico. Enquanto a audição humana consegue distinguir sons de até 20 mil hertz (Hz), os cães podem captar frequências de até 40 mil Hz e os gatos chegam a perceber sons de até 65 mil Hz. Isso faz com que os estampidos sejam sentidos de forma muito mais intensa pelos animais.

De acordo com a médica-veterinária Amanda Ungar, clínica geral especializada em nutrologia e alimentação natural, essa diferença explica o sofrimento enfrentado por muitos pets durante períodos festivos.

“Os cães e gatos possuem uma audição muito mais sensível que a nossa, então, para eles, a explosão dos fogos é muito mais intensa. Normalmente se observa agitação, tremores, eles tentam se esconder e perdem o apetite e o sono”, explica a profissional, que atua na clínica Citvet 2, em Brotas.

Além do medo e da ansiedade, os estampidos podem desencadear problemas físicos sérios, especialmente em animais idosos ou que já apresentam doenças preexistentes. Segundo a veterinária, quadros cardíacos merecem atenção especial.

“Os animais mais propícios são os que já possuem alguma comorbidade ou são mais idosinhos, principalmente comorbidades cardíacas, que podem exacerbar com o medo. Isso pode gerar taquicardia intensa, infarto, crises respiratórias e, por fim, o óbito”, alerta.

Outro efeito frequente dos fogos é o aumento no número de fugas de animais domésticos. Assustados pelo barulho, muitos cães e gatos entram em estado de pânico e tentam escapar sem direção definida, o que amplia o risco de atropelamentos, ferimentos e desaparecimentos.

Amana relata já ter acompanhado casos de animais que desenvolvem verdadeiro pânico dos estampidos: “O medo pode ser tão intenso a ponto de o animal ficar completamente desnorteado e tentar sair sem direção. Já tive um cão que tinha pânico de fogos e, todas as vezes que ficava com muito medo, fugia e andava sem rumo durante horas. Esse tipo de comportamento pode levar a inúmeros acidentes, principalmente em cães que não têm costume de andar na rua. Nessa época do ano é muito comum vermos anúncios de animais desaparecidos que nunca mais são encontrados”, conta.

Entre os animais que exigem maior atenção estão os idosos e aqueles que possuem doenças cardíacas ou outras comorbidades. Nesses casos, o estresse provocado pelos fogos pode causar descompensações graves. “Animais idosos, principalmente os que possuem comorbidades cardíacas, podem descompensar por consequência da taquicardia e da taquipneia, podendo até ir a óbito. Já os filhotes nem tanto. Esse período, inclusive, é ideal para tentar dessensibilizar o pet para essa situação”, afirma.

Para minimizar os impactos dos fogos de artifício, a recomendação é adotar medidas preventivas antes e durante as comemorações. Entre as principais orientações estão manter o animal em um ambiente mais silencioso da casa, utilizar sons suaves para mascarar os ruídos externos e reforçar a segurança para impedir possíveis fugas.

“Algumas medidas incluem colocar o pet em um cômodo menos barulhento, com algum som que o acalme, utilizar medicamentos naturais para aliviar o estresse, como homeopatias, melatonina e passiflora, tentar estar próximo ao animal e evitar qualquer rota de fuga à qual ele possa ter acesso no momento de pânico”, orienta.

Especialistas também recomendam o uso de música ou televisão em volume moderado para ajudar a mascarar os ruídos externos e tornar o ambiente mais confortável para os animais durante os períodos de maior intensidade dos fogos.

Nos últimos anos, o debate sobre a substituição dos fogos tradicionais por versões sem estampido tem ganhado força em diversas cidades brasileiras. Em Salvador, a Câmara Municipal aprovou, em dezembro de 2019, o projeto de lei 60/2019 que proíbe a utilização de fogos de artifício com efeitos sonoros na capital baiana, determinando que eventos e celebrações utilizem artefatos exclusivamente visuais. A exceção prevista no texto são os eventos religiosos.

Para a especialista, a adoção de fogos silenciosos representa uma alternativa capaz de conciliar a tradição das celebrações com o bem-estar animal.

“Esse seria o melhor dos mundos. Os clarões não costumam incomodar. O grande problema é o estouro, que, se para nós já é alto, para eles é mil vezes pior”, conclui.

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