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AfroBusiness Comunicação encerra primeira edição consolidado como espaço nacional de articulação da comunicação negra

André Luzolo | Foto: Marcella Figueiredo

O AfroBusiness Comunicação encerrou, nesta quinta-feira (18), sua primeira edição nas instalações da Biblioteca Central da Bahia, em Salvador. Ao longo de três dias de programação, o evento reuniu profissionais, estudantes, pesquisadores e empreendedores da comunicação para debater gestão de negócios, inovação, formação profissional e os desafios da mídia negra no Brasil.

A iniciativa se propõe a fortalecer o conceito de afroempreendedorismo na comunicação, promovendo a valorização da identidade negra e a ampliação de oportunidades econômicas para profissionais e empresas do setor.

A programação do último dia foi aberta com o workshop “O Futuro do Design com Inteligência: Racismo Algorítmico e Comunicação Popular”, conduzido pelo designer baiano André Luzolo, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador de lote do programa Corra Pro Abraço.

“IA não é neutra. A imagem de controle é justamente essa forma de compreensão que temos sobre a nossa própria imagem. É uma reflexão sobre como o racismo algorítmico vai funcionar, como as imagens serão transmitidas e como isso nos afetará enquanto sociedade preta”, afirmou.

Segundo Luzolo, é fundamental que profissionais negros estejam preparados para compreender e enfrentar os impactos das tecnologias sobre a representação racial. Para ele, a formação teórica contribui para o fortalecimento da argumentação, da construção de repertório intelectual e da autodefesa diante do racismo algorítmico.

Ainda pela manhã, o evento recebeu o pesquisador Moisés dos Santos Viana, doutor em Difusão do Conhecimento, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e membro do Grupo de Pesquisa Agricultura Comparada e Agricultura Familiar da UFBA. Durante a atividade voltada à comunicação, pesquisa e formação universitária, ele abordou os avanços e desafios da área nas instituições públicas de ensino.

“Nós temos um movimento de negação da própria universidade pública. Há apenas dois anos conseguimos implementar um estúdio de comunicação nas nossas instalações”, informou.

Na sequência, Viana apresentou um estudo sobre a implementação da Lei de Acesso à Informação em cinco instituições de ensino superior, analisando como as políticas de comunicação e os processos de gestão institucional dialogam com o fortalecimento dos afro negócios.

Moisés dos Santos Viana | Foto: Marcella Figueiredo

Entre os participantes, o evento foi apontado como um importante espaço de formação e visibilidade para estudantes e profissionais negros da comunicação.

“Acho muito importante ter esse tipo de evento, principalmente aqui em Salvador, por ser uma cidade majoritariamente negra, onde muitas pessoas atuam na comunicação e precisam ter essa visibilidade. O acesso a eventos gratuitos como esse nos fortalece e nos ajuda a nos reconhecer no mercado”, destacou Vitória da Silva Aragão, formada em Design pela UNIJORGE e graduanda em Relações Públicas pela UNEB.

Já Camila dos Santos Sales, estudante de Cinema e Audiovisual da UFBA e de Jornalismo pela UNINTER, ressaltou o impacto do evento na ampliação de perspectivas profissionais.

“Eu estudo muito sobre pessoas brancas e, infelizmente, os pioneiros do cinema foram homens brancos. Ter essa visão que o evento está trazendo sobre economia e modelos de negócios na comunicação é enriquecedor para além das pautas levantadas no currículo da universidade. Isso amplia a minha perspectiva para o que eu quero construir na comunicação e nas equipes que eu possa liderar no futuro”, afirmou.

Economia da atenção e criatividade negra

No período da tarde, o Painel 4 abordou o tema “Influência Negra e Economia da Atenção e da Criatividade”, reunindo o diretor audiovisual Bruno Zambelli, a publicitária e estrategista Letícia Sotero, sócia-diretora da Agência Asminas, e a jornalista Silvana Oliveira, responsável pela mediação. Silvana Oliveira, Letícia Sotero e Bruno Zambelli

Durante o debate, Letícia Sotero destacou a importância de Salvador como polo de produção criativa e defendeu a valorização dos profissionais locais.

Silvana Oliveira, Letícia Sotero e Bruno Zambelli | Foto: Marcella Figueiredo

“Salvador é um celeiro cultural. A gente precisa resgatar isso. O AfroBusiness acontecer aqui tem outro valor porque entendemos a nossa realidade e o quanto precisamos impulsionar os nossos. Que a gente consiga falar mais sobre dinheiro, sem vergonha de discutir quanto ganha ou quanto cobra, porque é assim que conseguimos avançar”, afirmou.

Bruno Zambelli também ressaltou a relevância de iniciativas voltadas ao fortalecimento do mercado negro da comunicação.

“É muito importante que o AfroBusiness aconteça de forma organizada e com investimento para permitir o amadurecimento desse mercado de comunicação na indústria preta. É um evento que precisa se perpetuar por influenciar outras pessoas a promoverem iniciativas semelhantes”, disse.

Para ele, as redes sociais podem ser utilizadas não apenas para entretenimento, mas também como ferramentas de formação profissional.

A discussão sobre empreendedorismo também contou com a participação da empresária Jéssica Nunes, sócia da Entrelaço Comunicação. Segundo ela, ainda existe resistência em discutir precificação e geração de renda dentro dos negócios liderados por pessoas negras.

“Não precisamos ter medo. Precisamos ter coragem de incentivar outras empresárias e outros empreendedores a fazer essa roda girar. O mundo dos negócios sempre enxergou o povo preto como povo sem dinheiro, mas a favela movimenta bilhões de reais. Falta diálogo para que as marcas e os negócios entendam a potência que nós somos”, destacou.

Também presente na programação, o ator, dramaturgo e comunicador Sulivã Bispo ressaltou o papel do AfroBusiness na construção de redes de apoio e representatividade.

“O AfroBusiness é um espaço de reconhecimento muito grande, onde você consegue se reconhecer não apenas na mesa, mas em todo o público presente. Estamos fortalecendo essa representatividade e esse sentimento de pertencimento. É muito bonito e especial”, afirmou.

Comunicação antirracista

Encerrando a programação, o Painel 5 debateu “O Futuro da Comunicação Antirracista no Brasil”, reunindo a presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Suely Temporal, a jornalista e apresentadora Naiara Oliveira e o pesquisador Yuri Silva, responsável pela mediação.

Yuri Silva, Suely Temporal e Naiara Oliveira | Foto: Marcella Figueiredo

Para Yuri Silva, Salvador ocupa um papel estratégico no debate nacional sobre igualdade racial e comunicação.

“Avançar num debate tão necessário como a comunicação negra não poderia acontecer em outro lugar que não fosse essa cidade, que já tem marcos importantes na historiografia nacional voltados à promoção de direitos da população negra. Esse debate tem um pé grande no setor privado, mas também impacta diretamente o setor público e a construção de políticas públicas”, afirmou.

Idealizado pela Associação Folia Africana, Zumbi Comunicação e Umbu Comunicação & Cultura, o AfroBusiness Comunicação contou com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio da Fundação Pedro Calmon. O evento também teve apoio de mídia do Portal Soteropreta, Rádio Nova Brasil Salvador, Imagem Digital Out of Home, Rádio Salvador FM e Portal Umbu, além de patrocínio da Caixa e do Governo Federal.

Texto: Patrícia Bernardes – jornalista, redatora, mobilizadora de projetos de impacto social em educação, letramento e cultura identitária, e repórter colaboradora do Portal UMBU

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