Sítio arqueológico no Campo da Pólvora pode conter restos mortais de mais de 100 mil pessoas e lideranças de revoltas negras

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A confirmação da existência do antigo Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora, localizado sob o atual Complexo da Pupileira, em Salvador, revela memórias soterradas por quase dois séculos. O sítio arqueológico, que funcionou por aproximadamente 150 anos como o primeiro cemitério público da capital baiana, recebeu corpos de milhares de africanos escravizados, indígenas e lideranças de movimentos de resistência, como a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês.
As escavações, coordenadas pela arqueóloga e antropóloga Jeane Dias, confirmaram vestígios humanos a três metros de profundidade em maio de 2025. “Chamamos de cemitério, mas, na verdade, era um depósito de corpos”, afirmou a pesquisadora, destacando que o espaço refletia as violências do período escravista. A localização foi identificada pela arquiteta Silvana Olivieri, que utilizou mapas do século XVIII e registros históricos para mapear o apagamento do local após sua desativação em 1844.
A Fundação Cultural Palmares e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acompanham a preservação do sítio, já homologado como patrimônio. Para Cida Santos, diretora da Fundação Palmares, a descoberta é central para a missão institucional: “Preservar essa memória é garantir que ela não seja novamente apagada”. Estimativas indicam que o local pode ser um dos maiores acervos de remanescentes humanos de pessoas escravizadas das Américas, servindo como marco para o debate sobre dignidade e reparação histórica no Brasil.



