Especialistas alertam para recuo de plataformas digitais e rapidez de ferramentas sintéticas, enquanto campanhas e entidades de imprensa buscam estratégias de contenção.

O cenário para as eleições de 2026 apresenta um desafio sem precedentes para a democracia brasileira e baiana. A democratização de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), aliada ao recuo das grandes plataformas digitais na moderação de conteúdo, cria um ambiente de vulnerabilidade que preocupa pesquisadores, jornalistas e coordenadores de campanha. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenta estabelecer freios regulatórios, a velocidade das práticas de desinformação testa os limites das instituições públicas e do jornalismo profissional.
A democratização do ataque digital
Para Rodrigo Carreiro, co-diretor executivo do Aláfia Lab e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), a novidade deste ciclo é a acessibilidade das tecnologias. “Em termos de IA, a novidade deste ano realmente é a democratização das ferramentas, uma vez que elas estão mais diversas, baratas e fáceis de utilizar. Nesse sentido, a indústria das fake news ganhou mais uma ferramenta potente para disseminar suas mensagens”, afirma Carreiro. O monitoramento realizado pelo laboratório, em parceria com a Data Privacy Brasil, aponta que o uso de IA não se restringe apenas à criação de notícias falsas, mas também a ataques que atingem a integridade eleitoral.
O recuo das plataformas e o vácuo na fiscalização
O cenário é agravado pelo que Carreiro descreve como um retrocesso na postura das Big Techs em comparação ao pleito de 2022. “De fato, as big techs recuaram e o cenário está pior do que em 2022. Na época, as plataformas pelo menos estabeleceram um canal de comunicação com o TSE e realizaram algumas iniciativas. Esse ano, esse canal não existe mais”, explica o pesquisador. Ele ressalta ainda que, embora o Brasil tenha avançado em legislações como o Eca digital e decretos de proteção, o conteúdo político patrocinado permanece opaco.
Estratégias de campanha e o silêncio da oposição
No campo político, a campanha do governador Jerônimo Rodrigues (PT) afirma estar se estruturando para responder ao ambiente digital com foco na prestação de contas. A diretriz declarada pela coordenação é de que “quem tem entrega não precisa de mentira, precisa de informação”. A estratégia prevê o acompanhamento de redes sociais e a colaboração de apoiadores para identificar conteúdos manipulados. “Quando uma informação falsa, manipulada ou descontextualizada for identificada, ela será analisada de forma técnica, jurídica e comunicacional, para que a resposta seja rápida, proporcional e baseada em fatos verificáveis”, garante a assessoria da campanha.
Sobre o uso de IA, a campanha de Jerônimo Rodrigues assegura que a tecnologia será usada apenas como apoio administrativo e analítico. “A diretriz é simples e não tem exceção: não usar IA para enganar o eleitor. Não será criado nem divulgado conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos inverídicos ou descontextualizados, nem deepfakes ou simulações capazes de induzir o eleitor a erro, como veda a Justiça Eleitoral”, afirma a nota enviada ao Portal Umbu.
O Portal Umbu também entrou em contato com a coordenação de campanha de ACM Neto (União Brasil) para questionar sobre as estratégias de combate à desinformação e o uso de novas tecnologias, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.
O papel do jornalismo e a resistência no interior
Pelo lado institucional da imprensa, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI-Bahia) foca na educação midiática e no suporte aos profissionais, especialmente no interior do estado. A presidente da entidade, Suely Temporal, destaca que o alcance digital não substitui o método jornalístico. “O desafio não é demonizar esses novos canais, porque muitos cumprem um papel relevante em suas comunidades, especialmente no interior. O desafio é estimular uma cultura de responsabilidade: quem informa precisa compreender o impacto público daquilo que publica”, pontua Temporal.
A ABI-Bahia também monitora o fenômeno das páginas de nicho e fofoca, buscando aproximar esses produtores de conteúdo das discussões sobre ética. Para proteger os jornalistas que enfrentam pressões políticas locais, a entidade mantém a Rede Agostinho Muniz de Combate à Violência contra Profissionais de Imprensa. “Sabemos que o jornalista do interior muitas vezes atua em um ambiente mais desafador: maior proximidade com os poderes locais, pressões políticas e econômicas, estruturas menores e menos acesso a ferramentas de apoio”, observa a presidente da ABI.
Limites institucionais e o futuro do debate público
A eficácia das novas resoluções do TSE para 2026 ainda é vista com cautela. Embora Rodrigo Carreiro considere as regras um avanço, ele aponta uma lacuna crítica: “o TSE não divulgou como vai fiscalizar isso”. Para o pesquisador, a estrutura estatal é engessada e lenta para responder a demandas tão dinâmicas. A incorporação da IA para produzir desinformação cria, segundo ele, um problema legal de responsabilização que dominará os debates deste ano.



