
“Michael”, a cinebiografia do rei do pop dirigida por Antoine Fuqua, tornou-se um fenômeno tal qual o artista que retrata. O longa acaba de bater mais um recorde ao se tornar uma das maiores bilheterias recentes da Universal no Brasil, levando milhões de espectadores às salas de cinema. A recepção da crítica especializada, no entanto, foi bastante menos entusiasmada, reacendendo uma velha discussão: por que público e crítica tantas vezes parecem falar de filmes diferentes?
A divergência não é exatamente um problema. Pelo contrário: ela revela algo essencial sobre o cinema. O público pode se conectar emocionalmente com uma obra, enquanto a crítica observa também seus aspectos formais, narrativos, estéticos e simbólicos. Uma experiência não invalida a outra. O erro está em transformar essa diferença em uma disputa, como se artistas, espectadores e críticos ocupassem lados opostos.
Existe um preconceito antigo em relação à função da crítica, como se ela fosse apenas uma pedra no caminho do cineasta, dedicada exclusivamente a apontar defeitos. Mas uma boa crítica nunca se resume ao julgamento simplista do “gostei” ou “não gostei”. Ela é, antes de tudo, uma ferramenta de reflexão. A crítica ajuda a pensar a obra, amplia interpretações, propõe caminhos e oferece ao público novas formas de enxergar aquilo que viu na tela. Muitas vezes, ajuda inclusive o próprio artista a compreender melhor sua criação e o impacto dela no mundo.
Cinema e crítica sempre caminharam juntos. Não se sabe exatamente quem impulsionou quem, mas basta olhar para movimentos como a Nouvelle Vague para perceber como a reflexão crítica foi decisiva na renovação da linguagem cinematográfica.
Na Bahia, isso também aconteceu de maneira muito forte. O ciclo baiano de cinema dos anos 1960 foi profundamente incentivado pelo trabalho de Walter da Silveira, criador de cineclubes e articulador de um pensamento crítico sobre o cinema local e mundial. Walter acompanhou o surgimento de jovens realizadores, incentivou debates e ajudou a formar um olhar cinematográfico no estado. Viu nascer “Redenção”, nosso primeiro longa-metragem, criticado por utilizar Salvador apenas como pano de fundo. E viu também “Bahia de Todos os Santos”, obra que aguardava com entusiasmo, mas que desmontou em um texto histórico ao classificá-la como exemplo do “não-cinema”.
Pode parecer duro hoje, mas a crítica exercia justamente seu papel: provocar reflexão sobre os caminhos possíveis para o cinema baiano. E talvez seja disso que ainda precisemos.
Já não vivemos o período áureo daquele ciclo, mas também não podemos permanecer presos à nostalgia. O cenário audiovisual baiano contemporâneo é diverso, fértil e cheio de potência. Escolas de cinema se consolidam, novas gerações de realizadores circulam em festivais nacionais e internacionais, e os filmes baianos ocupam cada vez mais espaços de exibição e debate. Há uma juventude interessada em linguagem, estética e identidade audiovisual.
Para fortalecer essa nova geração, é fundamental fomentar também novos críticos, novos olhares e novas formas de debate. Não apenas opiniões rápidas de influencers que reduzem a experiência cinematográfica a reações imediatas e superficiais. Claro que toda experiência com o cinema é válida e ninguém deveria determinar quais filmes merecem ou não ser vistos. A função da crítica não é interditar o público, mas ampliar sua percepção, oferecendo outras perspectivas possíveis para a obra.
“Michael” é um bom exemplo disso. O filme funciona sobretudo como experiência afetiva para os fãs: uma recriação da presença de palco, da música e dos videoclipes de Michael Jackson. É natural que muitas pessoas saiam da sessão empolgadas, emocionadas e querendo mais. Mas o cinema não se esgota no encantamento imediato.
Cinema também é linguagem. É construção estética, visão de mundo, reflexão sobre o tempo, sobre a sociedade e sobre nós mesmos. É arte, mas também comunicação. Existem elementos narrativos, visuais e simbólicos que podem aprofundar a experiência do espectador. E é justamente nesse espaço que a crítica se torna importante: como ponte entre o filme e o pensamento, entre a emoção e a interpretação.
Talvez precisemos recuperar essa ideia de crítica como mediação cultural, tal como Walter da Silveira representou em outro momento da nossa história. Um cinema verdadeiramente plural não se constrói apenas com bilheteria ou aplausos, mas também com debate, reflexão e diversidade de olhares. Um cinema de todos e para todos talvez não seja um sonho tão distante. Basta criar os vínculos certos e deixar a arte falar.



