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Festa de São Jorge promove encontro de diversas culturas religiosas

Foto: Reprodução/Getty Images

Nesta quinta-feira acontece a festa de um dos santos mais populares do catolicismo: São Jorge. No Rio de Janeiro a celebração vai ser imensa. Em Salvador tem nuances mais modestas, mas está se ampliando. Se antes era apenas na única paróquia dedicada a ele na capital baiana e localizada no Jardim Cruzeiro, agora tem comemoração da Devoção de São Jorge, sediada no Centro Histórico de Salvador. Além do alto prestígio em várias regiões do catolicismo pelo mundo, São Jorge se tornou um dos mais conhecidos ícones dos encontros entre o catolicismo e as religiões afro-brasileiras. Na Bahia, a aliança é com Oxóssi, o grande caçador, provedor que não deixa faltar alimento e rei de Ketu, na tradição nagô, equivalente a Mutalambô e Gongobira nos candomblés de nação angola. Já no Rio de Janeiro a aproximação é com Ogum e Nkossi, senhores da tecnologia, do manejo dos metais e das demandas que necessitam da força da espada. São Jorge tem muitos devotos e é considerado um grande protetor nas batalhas contra o mal. Chega mais que tenho umas histórias para te contar sobre esse interessante culto. 

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1. O dragão quase complica o status oficial de São Jorge

Do Mistério da Páscoa” é o título do decreto publicado em 24 de fevereiro de 1969 pelo papa Paulo VI. O documento aprovou uma reforma realizada no Calendário Romano Geral, que estabelece diretrizes para as celebrações da Igreja. Faziam apenas três anos do encerramento do Concílio Vaticano II, uma grande reunião da Igreja que estabeleceu algumas mudanças, como a celebração das missas em línguas nacionais e os padres não mais ficarem de costas para o público. Um concílio estabelece mudanças amplas e por isso não é realizado com tanta frequência. Só um exemplo: O Concílio Vaticano I terminou em 1870 e o II começou em 1962, ou seja, 92 anos de um para o outro. 

Após o Vaticano II, a Igreja estava empenhada em dar respostas atualizadas a um mundo em ebulição: revolução sexual, ameaça de uma Terceira Guerra por conta das disputas entre EUA  e URSS; corrida espacial, avanços científicos, a cultura da TV em ritmo acelerado e outras transformações. Um dos objetivos da reforma foi atualizar as celebrações dos santos, algo muito antigo na Igreja e que tem a ver com a sua memória. No decreto sobre o Calendário, o papa Paulo VI justificou que ao retirar os nomes de alguns santos celebrados de forma universal abriu-se espaço para alguns mártires com histórias conhecidas em determinadas localidades, onde o cristianismo chegou mais tarde. Ele afirmou que eles têm tanta importância como os demais. 

Um dos critérios usados para que os nomes fossem suprimidos e as festas se transformassem em facultativas ou locais foi a reunião de dados historiográficos. São Jorge, seguindo esse critério, já tinha um problema. Seu maior feito, registrado em toda a sua iconografia, foi matar um dragão. A dificuldade está na situação desse animal em existir apenas nas narrativas imaginárias. É um ser mítico. Por essa lógica, Jorge teria a sua festa suprimida, mas a sua importância no mundo católico já era muito forte. 

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São Jorge é patrono da Inglaterra e em Portugal foi elevado a essa mesma condição, destronando Sant’Iago e tomando o lugar deste na procissão de Corpus Christi. Único dia em que Jesus presente na Eucaristia sai às ruas, nas celebrações de Corpus Christi  em Portugal, São Jorge era representado em grande estilo. “São Jorge a cavalo, luxuosamente arreiada a montaria, com numeroso e luzidio estado-maior e os tradicionais pretos bailando à retaguarda; santos, anjos, sátiros, ninfas, diabos, feiticeiros, gigantes, deuses da mitologia helênica e romana, reis, imperadores, Jesus Cristo e os doze apóstolos. Todo esse heteróclito séquito apresentava-se entremeado de danças, momos e invenções de mouros, negros e ciganos, de mercadores, de espadeiros, e de outros ofícios”. Esta descrição foi feita por João da Silva Campos em seu maravilhoso livro sobre procissões na Bahia. 

A descrição de Silva Campos dá uma medida de como a devoção a São Jorge já era bem multicultural. Seu culto tem origem no catolicismo oriental e tem resquícios de ritos celebrados para obter chuva, por exemplo. A devoção a este mártir data dos primeiros séculos de institucionalização da igreja com seus ritos de memória aos santos.  

Com tantas conexões e uma importante presença no missal, o guia para a celebração das missas, São Jorge conseguiu ser inserido na categoria de memória facultativa, ou seja, a celebração da sua festa é opcional. Mas eis que esta devoção no Brasil teria ainda um grande trunfo. Vamos ao próximo item. 

2. Alianças para além do cristianismo 

Essa presença de São Jorge à frente das procissões de Corpus Christi em Portugal chegou a Salvador. Essa, inclusive, foi a primeira festa pública da cidade após a sua fundação em 1549. E, segundo os relatos detalhados de João da Silva Campos no seu já mencionado livro, São Jorge guiava a procissão sem o grande aparato da descrita em Portugal, mas ainda assim com algum brilho. 

Para o historiador Waldir Freitas de Oliveira, em seu livro Santos e Festas de Santos na Bahia vem dessa saída da imagem do matador de dragões à frente da procissão de Corpus Christi a coincidência da abertura do calendário de festas públicas, neste dia de celebração católica, em três grandes e antigos terreiros de tradição ketu com a celebração para Oxóssi: Ilê Axé Iya Nassô Oká (Casa Branca do Engenho Velho da Federação); Ilê Iyá Omi Axé Iyamassé (Terreiro do Gantois) e Ilê Axé Opo Afonjá. 

Já no Rio de Janeiro, especialmente na umbanda, São Jorge é associado a Ogum por conta da sua condição de militar. A leitura da sua iconografia é do poder que a espada de Ogum possui para combater qualquer tipo de mal que ameaça o mais precioso bem da humanidade: a vida.  

É, portanto, um encontro de culturas muito bonito, pois mesmo sem as provas históricas, o dragão é visto como uma alegoria do mal que pode ser também o espectro da fome eliminada pela providência que vem de Oxóssi. Vale ressaltar que esses encontros se dão não por sobreposição, mas por semelhanças. 

Então chegamos a um ponto chave: essa associação de São Jorge com divindades de outras religiões tão fortes no Brasil não permitiu nenhum prejuízo à sua devoção mesmo com sua festa transformada em facultativa no catolicismo. Pelo contrário, São Jorge mantém um protagonismo significativo em conquista de devotos.    

Oxóssi e Ogum | Gif: Portal Umbu/ Imagens: Shutterstock/João Bidu/Reprodução/UOL e Célia Cerqueira/Flickr
3. O soldado incansável da defesa da vida e das escolhas

A história mais conhecida sobre São Jorge o situa como um cavaleiro andante que foi em socorro de uma cidade atacada por um dragão. Periodicamente a fera saía de um lago e para acalmá-la mulheres virgens lhe eram oferecidas. A escolha se dava por sorteio até que em uma ocasião a filha do rei foi a escolhida. Jorge chegou a tempo de salvá-la e a moça voltou para a cidade levando o dragão domesticado e puxado por uma corrente. Como agradecimento, Jorge pediu que todos se convertessem ao cristianismo. 

Segundo a tradição católica mais oficializada, São Jorge nasceu na Capadócia, atual Turquia. Ele foi um legionário na era do imperador Diocleciano no século IV. Converteu-se ao catolicismo e, por isso, foi torturado de várias formas até ser decapitado. É considerado padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros. Também se costuma pedir proteção a ele contra a peste, a lepra e as serpentes.  

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Com tantas nuances dá para compreender a grande devoção que São Jorge ainda inspira conquistando até quem não tem uma fé institucionalizada. Em Salvador as celebrações para ele vão acontecer, na quinta-feira, na paróquia do  Jardim Cruzeiro com missas às 8 horas e às 13 horas. Às 16 horas acontecerá uma caminhada com saída do Largo de Roma até o Jardim Cruzeiro seguida da benção do Santíssimo Sacramento. Às 19 horas haverá a missa solene presidida pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Marco Eugênio Galrão. 

Já a Devoção de São Jorge, sediada na Igreja de São Francisco, vai festejar seu patrono com um café da manhã aberto, a partir das 7h30 no adro da Igreja da Ordem Terceira Secular de São Francisco (o templo ao lado da Igreja de São Francisco), oração do terço às 8 horas e missa solene às 9 horas sob a presidência do frei Jonaldo Adelino de Souza, seguida de procissão. Logo após tem atividade cultural com a Feijoada de São Jorge, vendida a R$ 25, e atrações musicais.

Para aprofundar o tema

A jornalista e doutora em Antropologia Cleidiana Ramos realiza, em parceria com a Umbu Comunicação, o curso “Festa, Memória e Religiosidades: Memórias, Encontros e Encruzilhadas”.

A proposta é refletir sobre as festas populares brasileiras como espaços de produção de conhecimento, onde fé, identidade e memória coletiva se entrelaçam.

🗓 De 20 a 29 de maio
💻 Online (Google Meet)
🎟 R$ 180 (inteira) | R$ 90 (meia)

Inscrições abertas em: https://bit.ly/m/antropologiadafesta

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