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Em meio à Páscoa, vale conferir evangelhos na versão de grandes escritores

J.J. Benitez, José Saramago e Gore Vidal escreveram obras sobre momento bíblico | Fotos: Reprodução

A nossa roda festiva segue intensa. Parece que foi ontem que estávamos em meio a algumas tretas, análises e exercícios de futurologia sobre o Carnaval de Salvador. Mas é assim mesmo porque essa cultura festiva é dinâmica e impacta até a nossa percepção de tempo. Já chegamos, portanto, ao feriado que emenda celebrações extremamente importantes para o catolicismo: Semana Santa e, depois, a Páscoa. A primeira começou com o Domingo de Ramos e vai até a meia-noite de sábado para dar lugar à Páscoa.  Entre garfadas e garfadas de comida regada a muito azeite de dendê – e isso em dias de fazer jejum, mas o povo faz lá suas licenças e com muita lógica (a gente sempre conversa sobre isso) -;  o vinho em lugar de destaque (cuidado que o danado engana e produz, segundo dizem entendidos, grandes ressacas);  e o tal do ovo de chocolate (coisas do encontro de culturas, persistência do culto à deusa Oster e as pitadas do capitalismo, que não perde uma) temos uma das celebrações mais importantes do ano, inclusive para os negócios. 

Gif: Tenor

É muita gente viajando, lojas lotadas para comprar ovos, coelhos e o que mais rolar de desculpa para consumir chocolate mostrando que, mesmo que você não perceba, está mergulhada e mergulhado em práticas culturais antigas e que, não importa a sua religião ou falta de adesão a qualquer uma, não tem muito como desviar ou fazer de conta que elas não estão aí. Elas têm muita força e isso é compreensível em um mundo que conta o tempo em antes e depois da passagem pela terra do protagonista destas celebrações: Jesus Cristo. 

Você pode ter várias questões e críticas especialmente a uma parte significativa do fã clube de Jesus, que parece gostar mais do que resolveu acreditar sobre ele  do que àquilo que se aproxima do que ele disse e fez , mas não dá para negar a sua importância para este mundo ocidental especialmente. Sabendo disso, alguns grandes escritores resolveram dar a sua própria versão sobre os evangelhos, que são os registros oficiais sobre ele reconhecidos pela Igreja Católica e pelas outras denominações cristãs, mesmo com a Reforma Protestante. A biografia e registros de palavras e ações de Jesus Cristo não foram escritos apenas por Matheus, Marcos, Lucas e João. Existem outros evangelhos que são chamados de apócrifos, ou seja, diferentemente do que muita gente pensa, eles não são “falsos”. São textos escritos nos primeiros séculos da história cristã, mas que não foram incluídos na coleção dos livros considerados sagrados e “inspirados” por Deus chamada de Bíblia. 

Gif: Hamnet/Reprodução/Tenor

Apócrifo tem mais a ver, em tradução, com “oculto” ou “escondido”. Tem até publicações de editoras católicas como a Vozes, com compilações sobre eles. Um dos meus preferidos é o Evangelho de Maria, atribuído a Maria Madalena e que defende sua importância como uma importante liderança das primeiras comunidades cristãs. Da mesma forma que existem estas outras narrativas sobre Jesus e suas ações e discursos, escritores contemporâneos colocaram a sua privilegiada capacidade de escrita para contar a história dele a partir das suas reflexões. Eu gosto especialmente de três destas experimentações que relato a seguir. Vem conferir e quem sabe se animar a conhecê-las melhor: 

Imagem 03: Gif de alguém escolhendo ou carregando dezenas de  livros 

Gif: The Thundermans/Reprodução/Tenor
O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Publicado em 1991 pelo maravilhoso José Saramago (1922-2010) é uma das belas obras de filosofia sobre um dos entendimentos possíveis sobre Jesus e seu dilema em descobrir, aos poucos, que, mesmo com sua humanidade cheia de defeitos como qualquer uma, é, na verdade, não apenas o Filho de Deus, mas a chave de um grande projeto que Ele concebeu para se tonar um Deus universal. Saramago, que até agora, é o único escritor de língua portuguesa detentor de um Nobel de Literatura, com a maestria que possuía na construção de textos sobre questões existenciais profundas faz uma leitura contundente sobre as perguntas que são feitas por muitas e muitas pessoas sobre alguém que precisou equilibrar a natureza divina com os dilemas das dúvidas e inquietações humanas. 

O romance tem trechos lindíssimos como aquele em que ele afirma que  o Filho de Deus chorou ao nascer porque o fizeram chorar assim como o fariam chorar tantas vezes. Mas o ápice do livro é um grande diálogo em uma barca, no meio do mar, entre Jesus e dois personagens cruciais da sua história que não vou dizer os nomes para não estragar uma das grandes surpresas do livro. É uma das passagens mais belas que já vi em literaturas. 

Mas Saramago pagou um alto preço por conta dessa sua bela obra. Ateu convicto e declarado foi barbaramente atacado especialmente em seu país natal, Portugal, a ponto de ter se retirado definitivamente para Lanzarote, que integra o arquipélago das Ilhas Canárias, território pertencente à Espanha. Os ataques ao livro se deram principalmente por conta da existência na narrativa de um relacionamento entre Jesus e Maria Madalena e que Saramago construiu de uma forma respeitosa e bonita. Os ataques a ele e ao seu romance respeitoso são as provas de que a ignorância e a intolerância não são fenômenos recentes e precedem a explosão das redes sociais. Independentemente dos ataques cercados de brutalidade e burrice, a obra se insere em uma das mais importantes da vasta bibliografia do autor que começou a escrever com mais constância já na maturidade dos 60 anos. Vale muito para quem deseja conhecer um relato nascido das perguntas que muita gente se faz sobre o que pode ter sido o lado humano de Jesus de Nazaré.

Ficha Técnica: 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Autor: José Saramago. 

Editora: Companhia das Letras. Fácil de ser encontrado.

José Saramago (Foto: Reprodução)
Ao vivo do Calvário- O evangelho segundo Gori Vidal

Em 1992, o escritor, ensaísta, dramaturgo, roteirista e ativista político, Gore Vidal (1925-2012) publicou o seu satírico livro em que mistura ficção científica, cultura da TV e cristianismo. Sua história é uma crítica ácida e por isso causou um enorme rebuliço. 

O enredo parte de um personagem enigmático, um pirata cibernético, que está apagando os livros do Novo Testamento. Ao mesmo tempo duas redes de TV norte-americanas conseguem uma tecnologia capaz de viajar no tempo e disputam quem vai fazer a melhor transmissão ao vivo da crucificação de Jesus. Uma delas escolhe São Timóteo como âncora e redator da história de Jesus a partir da sua convivência com São Paulo. Pronto. O caos está estabelecido no passado, com interferência do presente e sérias consequências para o futuro. 

As referências de Vidal sobre cultura pop, como os vídeos de ginástica, sátira às estelas de Hollywood, críticas à febre da autoajuda e à espiritualidade vendida como produto, e à falta de limites da indústria cultural rendem passagens impressionantes e muto divertidas. 

Mas atenção. É um livro para quem consegue rir em meio às críticas ácidas mesmo em questões de fé. Se você é muito sensível a isso não recomendo porque Gore Vidal não possui limites. É um iconoclasta de conceitos doutrinários. Muito antes de questões hoje centrais em meio à Revolução Digital, porque ela estava em seu começo, Gore Vidal apresenta inquietações que ela tem potencializado, como o consumo de informações sem reflexão crítica, a valorização da superficialidade se isso render dividendos nas plataformas de comunicação e muitas outras. O desfecho do livro é um dos mais fantásticos  plot twists que já tive contato em literatura. 

Ficha Técnica: 

Ao vivo do Calvário- O Evangelho segundo Gore Vidal

Autor: Gore Vidal

Editora: Rocco. Dificuldade média de ser encontrado em exemplares novos. Geralmente, a disponibilidade é na categoria “usados” e em sebos. 

Gore Vidal (Foto: Robyn Beck/AFP)
Operação Cavalo de Troia- vol 1 e 2, de J.J. Benitez

Os livros do escritor e jornalista J.J. Bentiez acabaram virando uma série de vários volumes, mas os dois primeiros é que fizeram a fama da coleção. A história, que ele jura que é real, nasce a partir do diário de um militar da Força Aérea norte-americana de alta patente que participou da operação denominada “Cavalo de Tróia”.  O projeto consiste em viajar no tempo a partir de um equipamento baseado em pesquisas sobre as unidades que o formam e a capacidade descoberta por cientistas de inverter os eixos que elas possuem. 

Benitez fez coberturas jornalísticas e foi se especializando em fenômenos relacionados a Ovnis e ao Santo Sudário de Turim, a controversa reprodução do corpo de um homem que tem ferimentos compatíveis com os de uma crucificação e que já foi objeto de várias pesquisas. Em uma delas foi usada a datação por carbono-14, que  o estabeleceu como originário da Idade Média. Mas muita gente, inclusive o próprio Benitez, acredita que é o pano original que cobriu o corpo de Jesus para o sepultamento patrocinado por José de Arimateia e guardado em uma igreja localizada em Turim, na Itália. A peça desafia e estimula a imaginação porque não se encaixa em técnicas de pinturas conhecidas e se assemelha a imagens de Raio X.

Na história contada por Benitez, dois militares são enviados para o período em que Jesus inicia sua vida pública e passam a acompanhá-lo ao mesmo tempo que conseguem material para as pesquisas que vão surpreendendo e se aproximando de uma perspectiva de ação alienígena. Eu tive a oportunidade de entrevistar Benitez, por email, na época que era repórter de A Tarde e fiz uma reportagem especial sobre peças literárias que seguem o estilo dos evangelhos (sou fascinada por elas). Ele respondeu a uma das perguntas sobre as suas frequentes afirmações de que as histórias dos romances são reais e disse que um dia isto ficará totalmente provado. Os livros são realmente fascinantes, especialmente porque são construídos com informações científicas que muitas vezes são antecipadas por ele- ao menos em relação à sua popularização-, como a nanotecnologia. 

Ficha Técnica: 

Operação Cavalo de Tróia- volume 1 (Jerusálem)  e volume 2 (Massada) 

Autor: J.J. Benitez 

Editora: Planeta. Fácil de ser encontrados

J.J. Benitez | Foto: Carlos Ruiz

Bom, pessoal, estes são alguns exemplos de como essa fascinante história de um homem, profeta ou Filho de Deus, dependendo da perspectiva que se tenha sobre Jesus de Nazaré influencia e influenciou tantas das camadas de nossa cultura. Na verdade, quase não dá para ficar indiferente à história que foi fundamental na fundação do que chamamos de Ocidente e impactou tantas outras civilizações em vários níveis. Um bom feriado para todas e todos. 

Gif: Tenor

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