Moradores enfrentam aumento de custos, controle dos espaços e apagamento enquanto o Centro Histórico é transformado em vitrine turística

Em 477 anos de existência, Salvador não construiu apenas igrejas, casarões e ladeiras ergueu também identidades, disputas e pertencimentos. Primeira capital do país, a cidade chega a mais um aniversário com cerca de 2,4 milhões de habitantes, segundo o IBGE, ainda atravessada por desigualdades históricas que se refletem no território. Ao longo desse tempo, uma pergunta permanece: para quem Salvador abre os braços? No Centro Histórico, essa disputa se materializa de forma cada vez mais evidente.
O Pelourinho não é apenas um cartão-postal. É território negro, vivo, em disputa. Ao longo do século XX, a região consolidou-se como espaço de moradia popular, abrigando majoritariamente famílias negras e trabalhadores. Esse cenário começou a mudar nos anos 1990, quando políticas de requalificação urbana transformaram o bairro em vitrine turística, acompanhadas da remoção de moradores e da redefinição do uso do espaço.

Hoje, esse processo se atualiza sob novas formas e os dados ajudam a dimensionar essa mudança. Informações dos Censos do IBGE mostram que áreas do chamado Centro Antigo vêm registrando redução ou estagnação populacional nas últimas décadas, em contraste com o crescimento de outras regiões da cidade. Ao mesmo tempo, cresce o número de domicílios com perfil não familiar ou de ocupação temporária, indicando uma transformação no modo de uso da moradia.
A pressão do mercado imobiliário também se intensifica. Levantamento do índice FipeZap aponta que Salvador registrou valorização consistente no preço de venda e aluguel de imóveis nos últimos anos, com destaque para áreas centrais e bairros históricos. Em regiões próximas ao Centro Histórico, o valor do metro quadrado e dos aluguéis tem acompanhado essa tendência de alta, impulsionado pela conversão de imóveis em empreendimentos turísticos, hospedagens de curta duração e estabelecimentos voltados ao consumo.
Na prática, isso significa mudança concreta no território. Em áreas como o Santo Antônio Além do Carmo, a Rua Chile e a Rua da Misericórdia, imóveis antes ocupados por moradores passaram a ser convertidos em bares, restaurantes, pousadas e residências de alto padrão. O resultado é um encarecimento progressivo do custo de vida e a restrição do acesso ao espaço urbano, que passa a ser mediado pelo consumo.
O controle das ruas, a presença de seguranças privados, a vigilância constante e a padronização estética redesenham não apenas a paisagem, mas também quem pode permanecer nela. O que está em curso não é apenas uma mudança visual, mas uma reconfiguração profunda: menos moradia, mais circulação; menos comunidade, mais vitrine.
Para o historiador Clissio Santos Santana, essa dinâmica não pode ser dissociada da história do próprio território, marcada pela violência contra corpos negros: “Essas pessoas são frequentemente invisibilizadas pela mídia, pelos poderes públicos e pelo próprio turismo. Muitas vezes, são tratadas como alegorias ou ‘enfeites’ estereotipados da chamada ‘baianidade’. É como se não fossem trabalhadores, estudantes, filhos, pais, mães, crianças e idosos, mas personagens rasos, marcados por estigmas e com pouca profundidade”, afirma.
Ele chama atenção ainda para a forma como o território vem sendo reconstruído simbólica e materialmente: “O Pelourinho foi reinventado para continuar sendo um espaço de violência. Não mais pelo chicote, mas pelo consumo, pelos cardápios e pelas festas luxuosas que se erguem sobre a dor de um povo que tentou se reconstruir para além dela, mas que nunca a esqueceu”, completa.

A geógrafa e paleteira Lorena Cerqueira reforça que o patrimônio histórico tem sido tratado como ativo econômico, em um processo que dialoga diretamente com a especulação imobiliária:
“A gente vive numa cidade onde o patrimônio histórico é visto como moeda e os processos de valorização têm dialogado com a especulação imobiliária. Ao invés de serem restaurados e devolvidos ao acesso público, muitos espaços estão se tornando ‘gourmet’, de acesso restrito: só entra quem pode pagar”, explica.
Segundo ela, o que acontece em ruas do Centro Histórico não é apenas mudança estética, mas uma reconfiguração profunda do território: “O que temos visto na Rua Chile, na Rua da Misericórdia e no Santo Antônio Além do Carmo é uma descaracterização do local, um modo de forjar experiências de consumo que destoam do patrimônio histórico e cultural, além de forçar e expulsar as comunidades locais, com ruas cheias de seguranças, manobristas e câmeras”, afirma.
Para a pesquisadora, esse processo aprofunda desigualdades e reforça a segregação. “
Esse modelo reitera uma segregação espacial com quem ainda resiste e vive ali, com dificuldades de acesso a direitos básicos como moradia, educação, saúde e mobilidade, além de enfrentar o estereótipo de marginalização a que a população do Centro Antigo é condicionada”, conclui.
Enquanto o Pelourinho é vendido como experiência, quem sustenta sua existência cotidiana segue sendo tratado como detalhe ou problema. Preserva-se a estética, mas se ameaça a permanência. Valoriza-se a história, mas se apaga quem vive.
No fim, a pergunta que atravessa os 477 anos de Salvador permanece aberta e urgente: a quem serve esse projeto de cidade?
Se a resposta não incluir quem sempre viveu, cuidou e resistiu naquele território, não se trata de revitalização. É continuidade. Porque no Pelourinho, a violência não acabou, ela só mudou de forma. E resistir, hoje, é, sobretudo, permanecer.



