Julgamento dos acusados pela execução da líder quilombola foi remarcado para 13 de abril, em Salvador; um dos réus segue foragido

O julgamento de Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos, acusados de participação direta no assassinato de Mãe Bernadete, foi oficialmente remarcado para o dia 13 de abril, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. A decisão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) ocorreu, na manhã desta terça-feira (24), após a nova defesa constituída pelos réus protocolar um pedido de adiamento.
De acordo com o TJ-BA, os advogados alegaram que o tempo para análise dos extensos autos do processo foi insuficiente desde que assumiram o caso, argumentando o direito à ampla defesa para evitar nulidades futuras. Arielson permanece sob custódia do Estado em prisão preventiva, enquanto Marílio, apontado como uma das principais lideranças do tráfico de drogas na Região Metropolitana de Salvador, segue foragido. No entanto, a legislação brasileira permite que o réu foragido vá a júri popular caso possua defesa técnica constituída, o que é o caso de Marílio.
Relembre o crime:
Mãe Bernadete Pacifico, ialorixá e coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), foi assassinada na noite de 17 de agosto de 2023. O crime ocorreu dentro de sua residência, na sede do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho. Os executores invadiram o local de motocicleta e dispararam 25 tiros contra a líder religiosa, que estava sentada no sofá da sala.
No momento do crime, os netos de Bernadete estavam presentes. Eles foram retirados do cômodo pelos criminosos antes dos disparos, o que evidenciou uma execução planejada e com foco exclusivo na eliminação da liderança quilombola. Após os tiros, os suspeitos roubaram os celulares da vítima e dos familiares para dificultar o pedido de socorro imediato.
Wellington, um dos netos, precisou utilizar um computador para enviar mensagens via aplicativo e alertar a comunidade sobre o ocorrido. O crime gerou comoção internacional e visitas de representantes do Governo Federal e da Organização das Nações Unidas (ONU) à comunidade.
Motivações
As investigações da Polícia Civil da Bahia e do Ministério Público concluíram que o assassinato de Mãe Bernadete não foi um ato isolado, mas o desfecho de uma série de conflitos territoriais. A líder quilombola era uma voz ativa contra a degradação ambiental e a ocupação ilegal de terras do quilombo por grupos criminosos. A motivação central foi a resistência da ialorixá à exploração ilegal de madeira e à realização de eventos utilizados para o comércio de drogas dentro do território.
Dois nomes aparecem como pivôs do descontentamento do tráfico: Sérgio Ferreira de Jesus, que explorava madeira ilegalmente e havia sido repreendido por Bernadete, e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, que mantinha barracas de festas na região para a venda de entorpecentes. Sérgio é apontado como o instigador que facilitou a entrada dos executores na sede do quilombo.
Para o crime organizado, a eliminação de Mãe Bernadete era estratégica para cessar as denúncias e o monitoramento que ela fazia junto às autoridades de segurança pública.
Rede de acusados e processos desmembrados
O processo judicial é complexo e envolve o desmembramento das ações para garantir o andamento conforme as condições de cada réu. Marílio e Arielson formam o núcleo central do julgamento adiado para abril. No entanto, há outros cinco envolvidos com situações jurídicas distintas:
Sérgio Ferreira de Jesus: Morador do quilombo e instigador do crime; será julgado separadamente em Simões Filho por receptação dos celulares e auxílio aos executores.
Josevan Dionísio dos Santos: Apontado como o segundo executor (ao lado de Arielson). Foi preso apenas em setembro de 2025, após um cerco policial onde fez a própria família refém. Seu processo foi desmembrado por ter sido capturado posteriormente.
Ydney Carlos dos Santos e Carlos Conceição Santiago: O primeiro é apontado como mandante e o segundo como o responsável por armazenar as armas e dar fuga aos criminosos. Ambos tiveram seus processos pausados temporariamente para a nomeação de defensores públicos ou advogados dativos.
Legado e espera por justiça
O assassinato de Mãe Bernadete ocorreu seis anos após a morte de seu filho, Binho Galvão, também assassinado no mesmo quilombo em circunstâncias que indicavam conflitos por terra. A demora no julgamento e o adiamento ocorrido nesta terça-feira trazem apreensão aos familiares e militantes dos direitos humanos. A Conaq e outras entidades de defesa dos povos tradicionais mantêm vigília permanente para que o caso não caia no esquecimento e que os mandantes sejam punidos com rigor.



