
Quando se fala em Carnaval de Salvador, a imagem que costuma prevalecer é a dos grandes trios elétricos e dos circuitos oficiais. No entanto, para além do espetáculo midiático, existe um carnaval que nasce e se renova nos bairros populares da cidade — base histórica, cultural e política da festa.
A presença de coletivos culturais afro-brasileiros no espaço público da cidade antecede em muito o século XX. Já no final do século XIX, afoxés, batuques, cordões e outras agremiações negras (troças, embaixadas e batuques), ocupavam as ruas, das comunidades e a periferia do circuito oficial (Baixa dos Sapateiros, Barroquinha etc), buscando ocupar a visibilidade e participação negra no espaço elitista do carnaval de época e afirmando o direito de corpos negros existirem, circularem e festejarem no espaço urbano.
Esse lastro histórico ganha novo fôlego nos anos 1970, quando bairros como Liberdade, Uruguai, Garcia, Tororó, Nazaré, Nordeste de Amaralina, Saúde, Subúrbio Ferroviário e Itapuã dentre outras localidades da cidade vivem uma intensa efervescência carnavalesca. A fundação do Ilê Aiyê, em 1974, no Curuzu, simboliza esse momento ao reposicionar a negritude no centro da festa.

Na atualidade, os carnavais de bairro passam por um processo natural de reoxigenação.
O Carnaval do Nordeste de Amaralina é um dos exemplos mais potentes desse movimento. Realizado em uma área historicamente estigmatizada como violenta, o evento desmonta estereótipos: durante o período carnavalesco, os índices de ocorrências policiais são baixos, revelando a força da cultura como mediadora social.
Além disso, o carnaval do Nordeste de Amaralina gera impactos econômicos concretos, com geração de renda, empregabilidade temporária e fortalecimento do comércio local, fazendo a economia circular internamente na própria comunidade.

Mais do que complemento dos grandes circuitos, o carnaval de bairro é a base que sustenta o carnaval da Bahia.
Em 2026, o convite está lançado: que leitores e amantes da festa conheçam o Carnaval do Circuito Mestre Bimba, no Nordeste de Amaralina. O circuito homenageia Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional, morador e liderança cultural da comunidade e também as outras expressões históricas e contemporâneas das demais comunidades-celeiro e berços da civilização soteropolitana: Liberdade, Uruguai, Garcia, Tororó, Nazaré, Nordeste de Amaralina, Saúde, Subúrbio Ferroviário e Itapuã



