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Conheça três plot twists na devoção a Iemanjá em Salvador 

Foto: Bruno Conha/SECOM/PMS

Nesta segunda-feira, milhares de pessoas de várias partes do Brasil enchem as imediações da Casa do Peso e espaços próximos a ela, no Rio Vermelho, para prestar homenagens a Iemanjá. Uma das festas de largo que compõem o calendário de verão de Salvador é a única comemoração totalmente dedicada a uma divindade das religiões afro-brasileiras.  A Festa de Iemanjá tem força e carisma para unir pessoas não apenas das religiões afro-brasileiras, mas de outros credos e até quem não se sente vinculada ou vinculado a uma prática religiosa específica, mas escolhe ir levar um presente – dê preferência às rosas – para agradar a Rainha do Mar. Trata-se, realmente, de uma grande festa organizada pela devoção dos pescadores da Colônia de Pesca Z-1 há mais de um século e, em sua generosidade, acolhendo quem chegar. Parece que foi tudo assim desde sempre, mas eu vou contar três plot twists relacionados às homenagens para Iemanjá em Salvador. Vamos lá e no ritmo de como se prepara um bom acaçá. 

Feitura do acaçá | Gif: Carlos Bozetti – Arte em Biscuit/YouTube/Reprodução
1. Monte Serrat era o espaço de culto principal às senhoras das águas

Quase que, no lugar do Rio Vermelho, era Monte Serrat que estaria lotado de devotos neste 2 de fevereiro. Em 1916, o jornal A Tarde publicou uma reportagem com umas críticas veladas, como era muito comum na imprensa baiana do período, à permanência dos cultos de base africana, mas apresentando Monte Serrat como o lugar do culto à Mãe D’Água. Esta reportagem de 1916  é um dos meus documentos preferidos dentre os reunidos para a pesquisa que resultou na minha tese sobre as festas de verão. O danado do meu colega repórter cometeu uma indiscrição, mas que rendeu informações preciosas para entender um pouco mais da complexidade destas incríveis festas resultantes da criatividade e resistência popular. Ele reproduziu o conteúdo de cartas que foram deixadas, em Monte Serrat, com pedidos para a divindade, como a de Francisca Maria de Jesus. Francisca pediu à rainha do mar, como a define, a sorte de acertar em uma dezena – olha a antiguidade da crença nas loterias – para poder comprar uma casa. Sua promessa consistia em, caso a graça fosse alcançada, levar um presente com direito à navegação em um saveiro. O indiscreto repórter contou mais: alguém deixou um bandolim – imaginem! – e um carneiro vivo, vale ressaltar, como presentes. Isso indica que Monte Serrat não era apenas o lugar de culto, mas também de deixar ex-votos. Tem mais registros da importância daquele belíssimo cenário nas homenagens à Mãe D’Água, categoria que inclui Iemanjá, a sereia, a Iara e Janaína: em outra reportagem do mesmo jornal, agora já em 1930, uma matéria afirma que o presente dos pescadores do Rio Vermelho foi levado para Monte Serrat. Jorge Amado, em seu romance Mar Morto, aponta Monte Serrat como o local que tem a igreja preferida dos pescadores para se casar, inclusive o protagonista do romance, Guma, embora afirme que a festa por lá acontecia em outubro.  Na localidade tem a Pedra da Sereia e é um dos cenários em que o pôr-do-sol tira o nosso fôlego de tanta beleza. A partir de 1924, o Rio Vermelho foi ganhando protagonismo e virou o centro das homenagens à Rainha do Mar. São elementos típicos da dinâmica festiva. 

Imagens de Monte Serrat | Gif: Portal Umbu | Imagens: Reprodução
2. De princesa a Rainha

Em seu livro “Orixás”, Pierre Verger apresenta Iemanjá como filha de Olokun, que aparece tanto em versão masculina (Benim) como feminina (Ifé). Ele ou Ela reina sobre as águas abissais, como as do oceano e, portanto, mares. A mesma fonte localiza Iemanjá como uma divindade cultuada pelo povo egba, que tinha o iorubá como idioma. Devido às guerras relacionadas à tragédia da escravização de africanos nas Américas, os egba migraram para Abeokutá, onde, segundo Verger, há um bairro onde fica o principal templo dedicado a ela. Um itan conta que Iemanjá ao se ver em perigo quebrou uma garrafa que havia recebido de Olokun e o preparado virou um rio o que a fez ser levada de volta para o oceano. Em Salvador, o culto de Olokun não se firmou, embora algumas fontes apontem indícios de que ele chegou a acontecer.  Assim, no universo das religiões afro-brasileiras foi feita uma partilha: Oxum ficou com a regência das águas doces e Iemanjá com o mar. Mas em várias localidades, inclusive do interior da Bahia, ela também é cultuada nos rios, afinal eles sempre correm em direção ao mar, ou seja, as águas se encontram e, vale lembrar que, antes do presente para Iemanjá no dia 2, tem o que é oferecido a Oxum, no Dique do Tororó, como complemento do mesmo rito. 

Oxum e Iemanjá | Gif: Portal Umbu | Imagens: Reprodução/Internet
3. Das margens ao protagonismo

A Festa do Rio Vermelho, realizada em meados do verão, era dedicada a Sant’Anna. A santa católica é considerada a mãe de Maria e, portanto, avó de Jesus. Na liturgia católica ela é celebrada em 26 de julho ao lado do seu marido, São Joaquim.  Sant’Anna, sem a companhia de São Joaquim, se tornou a padroeira do Rio Vermelho por conta de uma história que tem como contexto as Guerras da Independência do Brasil na Bahia. Segundo a memória tradicional, uma mulher idosa avisou os moradores do então local bem afastado do centro da cidade que os portugueses estavam planejando um ataque. O aviso ajudou a preparar a resistência e assim ela se tornou a padroeira. Quando o Rio Vermelho entrou na rota dos veranistas, eles passaram a se unir aos pescadores na comemoração. O antes da festa da padroeira era mais animado ao que parece do que o dia das celebrações solenes: desfile de terno de reis, banho de mar à fantasia e saída do Bando Anunciador. Este evento chegou a ter desfile em automóveis e temas variados. Afastados dos festejos católicos devido a uma desavença com um padre, os pescadores, em 1924 (ano mais frequentemente citado por algumas fontes), resolveram dar um presente à Mãe D’Água. Para isso foram buscar uma especialista, a ialorixá Júlia Bugã, de tradição ijexá, cujo terreiro ficava no espaço onde hoje é o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Feito o presente e abundância de pesca garantida eles resolveram continuar com o rito que, na década de 1940,  já estava ganhando visibilidade, inclusive no campo da indústria cultural com canções como as de Dorival Caymmi e a literatura de Jorge Amado. Na década de 1970, a paróquia transferiu a Festa de Sant’Anna para julho. Iemanjá, portanto, ficou com toda a visibilidade para sua festa. 

Sant’Anna e Iemanjá | Gif: Portal Umbu | Imagens: Internet/Reprodução

Com tantas histórias, a gente precisa cuidar com carinho desta celebração que é um patrimônio, inclusive já reconhecido nesta dimensão oficialmente pela Prefeitura de Salvador. No mais é ir celebrar com fé e pedir, principalmente, saúde mental, pois a vida não anda fácil. O pedido é mais do que pertinente, pois Iemanjá é a protetora do ori, ou seja, da cabeça, templo da nossa interação com o mundo e o que nos faz realmente existir, ou seja, atuar com a consciência de “que somos”.

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Luciana Galvão
Luciana Galvão
2 horas atrás

Cleidiana sempre uma referência para contar, preservar e fortalecer as nossas histórias Ancestrais. Orayeye ô! Odoya! Adupè!

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