Desde 2024, o pesquisador articula uma investigação entre água, pigmento naturais, cartografias fabuladas e sonhos de mundos possíveis, conectando ancestralidade, corpo e reencantamento

Entre o sopro das marés e a memória das águas do Recôncavo Baiano, o artista visual e pesquisador David Sol vem desenvolvendo “Azul Profundo”, uma pesquisa artística em continuidade que investiga o waji (ou uaji), pigmento afro-brasileiro de origem africana, em suas dimensões materiais, espirituais e simbólicas. A pesquisa artística propõe compreender o azul como um território de travessia e reencantamento, articulando pintura, fotografia, instalação, escrita e rituais pictóricos.
Nascido em Santo Amaro (BA), David Sol constrói uma trajetória marcada pela relação entre arte contemporânea, ancestralidade e espiritualidade afro-indígena, tendo o Recôncavo como base estética, política e afetiva. “O azul é mais do que cor para mim, é matéria de escuta, é horizonte que pensa. Essa cor habita o corpo das águas e o sopro das marés, mas também está nos tecidos rituais, nas louças da infância e nas paredes do Recôncavo. Ela vira ponte entre corpo e ancestralidade”, afirma o Sol
A pesquisa nasce de uma pergunta central que atravessa sua prática: como o azul pode ser compreendido como um território de travessia e reencantamento? Para David, o waji não se limita ao campo da cor como elemento plástico. Ao contrário, ele é tratado como presença viva e ancestral, “O pigmento waji não é apenas substância, eu o entendo como entidade ancestral, portadora de uma memória aquática que conecta mundos e tempos”, explica.
Como eixo conceitual central, “Memória e travessia” atravessa a pesquisa e orienta seu desenvolvimento: nele, o pesquisador compreende o azul como cor-memória, evocando o Atlântico como território espiritual, político e afetivo, um arquivo vivo onde histórias de resistência e sobrevivência se dissolvem e ressurgem em novas formas. Na prática, esse eixo se materializa em experimentos de diluição do waji em óleo sobre tela, tecidos e suportes orgânicos, além de registros performativos em que o corpo se torna instrumento de pintura e ativação simbólica. “Eu busco reencontrar gestos e práticas que antecedem a modernidade ocidental e propor um diálogo entre pintura, fotografia e paisagem. Mais do que um processo de produção, Azul Profundo é um rito de reencantamento”, afirma David.
A pesquisa se expande para além da Bahia e vem ganhando circulação internacional. Em 2024, David realizou a mostra “Okê Arô Okê” no México, apresentada anteriormente em Medellín (Museu do Colombo). Já em 2025, participou da coletiva “Afro-Brasilidades” na Fundação Getúlio Vargas (RJ) e integrou a exposição de reabertura da Casa Brasil, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, apresentou sua individual “Pedrinhas Miudinhas” no Museu Mafalala, em Maputo, Moçambique, e compôs a mostra “Interdiáspora”, vinculada ao Instituto Guimarães Rosa.
A trajetória de David também atravessa curadorias e projetos coletivos, como “Manifesto Fogueira” (2022), “Onde as cobras (não) dormem: Imagem e Re-território” (2022) e “Ecos Malês” (2024–2025), esta última reconhecida com 2º lugar no prêmio Melhores Exposições Coletivas do Brasil, pela revista Select. No campo da produção executiva, colaborou em “O Uniforme que Nunca Existiu” (Centauro, 2022), premiado com Leão de Bronze no Cannes Lions.
Ao tensionar os limites entre cor, rito e memória, Azul Profundo aponta para uma noção de ancestralidade como linguagem ativa, capaz de reorganizar o presente e fabular novos modos de existir. “O azul pensa devagar, como o mar. Nele, o tempo não passa, se dissolve, e o que emerge, depois do silêncio, é o tambor do mundo pulsando em nós”, afirma David. Para o artista, a pesquisa é também um gesto de retorno, ao território, às águas e às cosmologias que sustentam sua formação. “Meu trabalho nasce do território e retorna a ele, ele não existe sem a paisagem espiritual do Recôncavo, sem suas águas, seus ritos e seus modos de existir. Azul Profundo é meu mergulho nessa memória viva, como cor, como corpo”, conclui.



