
Como um vento de maré que traz consigo cheiros de dendê e sons de atabaques, o Carnaval de Salvador carrega memórias muito mais antigas que o desfile de um trio elétrico. Nele, as ruas não são apenas passarelas; são veias por onde corre a história da cidade mais negra do Brasil, pulsando com a alegria e a luta de gerações. Aos recém-chegados, pode até parecer que a “cultura negra” virou moda, mas, para quem olha com atenção, vê-se que ela sempre esteve ali, às vezes sufocada, às vezes silenciada, mas sempre presente. O que chamamos hoje de Carnaval Negro nasceu da resistência e da reinvenção, numa disputa simbólica que transformou a festa ao longo de mais de cem anos.
Depois da abolição e da proibição do entrudo em 1888, Salvador, já majoritariamente afrodescendente, viu florescer agremiações afrocentradas: batuques, afoxés, cordões e clubes uniformizados negros, como Embaixada Africana, Pândegos de África, Cavaleiros Africanos e Netos da África. Esses grupos desfilavam com berimbaus, ganzás e atabaques, cantando lundus e batuques e vestindo símbolos e danças de matriz africana. A elite, defensora de um carnaval de inspiração europeia, apelidou a festa de “carnaval africano” em 1898. A resposta oficial foi dura: em 1905, a polícia proibiu desfiles com batuques africanos, vetou máscaras depois das 18 h e obrigou a censura prévia das sátiras. Entre 1905 e 1914, muitos grupos desapareceram ou precisaram adaptar-se; historiadores dividem a saga dos blocos negros em quatro fases, da predominância do entrudo até 1888 à flexibilização entre 1915 e 1930, quando puderam voltar às ruas.
A crise econômica dos anos 1930 esvaziou os antigos clubes de elite e abriu espaço para as batucadas, grupos de percussão e samba formados por trabalhadores negros e mestiços. Pesquisadores apontam que, durante o governo Vargas, políticos e jornalistas passaram a celebrar batucada e samba como emblemas da cultura baiana. Essas batucadas serviram de ponte entre os clubes negros do século XIX e os afoxés e blocos afro que surgiriam depois.
Foi nesse contexto que também brilharam os cordões carnavalescos de samba – como o Vai Levando, cuja memória persiste entre sambistas e famílias de Salvador. A instituição, ativa entre as décadas de 1950 e 1970, reunia centenas de homens cantando sambas de autores baianos. O Vai Levando foi um bloco que conquistou prêmios repetidos ao valorizar a alegria comunitária e teve o sambista Batatinha como um de seus diretores, além do meu avô, Valdomiro Miguel França. Embora menos documentadas em fontes acadêmicas, essas histórias de bairro mostram como a semente do carnaval negro se espalhou muito antes de ganhar os holofotes.
E, nestes primeiros atos do carnaval negro mostra como as ruas de Salvador foram palco de repressão e de criação: entre proibições policiais, cordões e batucadas mantiveram vivas as sonoridades africanas e abriram caminho para as manifestações que, nas décadas seguintes, definiriam a identidade afro-baiana da festa. Essa trajetória segue no próximo texto, quando blocos afro e afoxés assumem o protagonismo que transformaria Salvador no maior carnaval de rua de inspiração africana.



