Mais de 600 peças retornam ao país após 30 anos em coleção privada nos Estados Unidos e passam a integrar o acervo do MUNCAB, em Salvador

O Brasil registrou, nesta segunda-feira (26), a maior repatriação de obras de arte afro-brasileira já realizada no país. Ao todo, 666 peças de artistas negros passaram a integrar o acervo do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), localizado no Centro Histórico de Salvador. O conjunto esteve por mais de três décadas em uma coleção privada formada por duas colecionadoras norte-americanas.
As obras chegaram à capital baiana no dia 12 de janeiro, após um processo logístico internacional que envolveu embalagem especializada, adequação às normas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte técnico. A devolução ocorreu de forma voluntária, por decisão das colecionadoras Bárbara e Marion, que reconheceram a importância simbólica e histórica do retorno do acervo ao Brasil.
Para a diretora artística do MUNCAB, Jamile Coelho, o gesto carrega um significado que vai além da dimensão museológica. Segundo ela, o termo repatriação remete ao “retorno ao lugar de pertencimento” e, neste caso, marca um ponto inédito na história cultural brasileira. “Diferente de outros processos, essa coleção saiu legalmente do país e retorna por uma decisão consciente, ética e política das colecionadoras”, afirmou durante o anúncio.
O acervo reúne obras de 135 artistas, sendo 93 afro-brasileiros, e abrange diferentes gerações, territórios e linguagens artísticas. Entre os nomes estão J. Cunha, Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia, Manoel Bonfim, entre outros artistas fundamentais para a construção da arte afro-brasileira.
Ao comentar a chegada das obras, Jamile destacou ainda o processo de reconstrução institucional vivido pelo museu nos últimos anos.
“Quando assumimos a gestão, encontramos uma instituição fragilizada, com um acervo deteriorado. Hoje, o MUNCAB se consolida como um dos principais faróis de preservação e difusão da cultura afro-brasileira no país”, ressaltou, defendendo também a possibilidade de tombamento do acervo por seu valor histórico e identitário.
A cerimônia de anúncio contou com a presença de artistas, gestores culturais e representantes do poder público. O diretor de Cidadania Cultural da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult), Chicco Assis, ressaltou o caráter reparador da iniciativa e a importância da ancestralidade no processo. “Esse retorno é um gesto de reparação histórica. Ele fortalece a nossa autoestima, reafirma a nossa identidade e reconecta a cidade com a potência da sua produção artística negra”, afirmou.

Chicco também destacou o papel das parcerias institucionais que viabilizaram a consolidação do MUNCAB como referência nacional. Segundo ele, a articulação entre a Prefeitura de Salvador e o museu, fortalecida desde 2023, foi fundamental para que o espaço se estruturasse e pudesse receber um acervo dessa magnitude.
Presente na coleção, o artista plástico J. Cunha falou sobre o peso simbólico do retorno das obras e comparou o processo brasileiro ao histórico de saque de bens culturais vivido por povos africanos e originários. “Museus europeus e norte-americanos foram construídos a partir da retirada desses objetos dos seus territórios. Trazer essas obras de volta é reafirmar nossa cidadania e nossa história”, disse. Para o artista, os criadores negros são “arquivos vivos” da memória cultural do país.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, afirmou que a repatriação integra um movimento mais amplo de retomada das políticas culturais no Brasil, impulsionado pela reconstrução do Ministério da Cultura.
“Estamos falando da maior repatriação de arte afro-brasileira já realizada. Esse resultado só é possível porque hoje temos um governo que entende a cultura como prioridade e como política de Estado”, destacou.

Segundo a ministra, o processo envolveu articulação entre o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Fazenda e a Receita Federal, além do diálogo com instituições internacionais. Margareth lembrou ainda que a repatriação de acervos é uma pauta debatida em fóruns globais, como a Organização das Nações Unidas (ONU). “Não basta apenas discutir, é preciso agir. O Brasil está assumindo esse compromisso com a memória, a justiça histórica e a reparação cultural”, afirmou.
Entre as obras que passam a integrar o acervo do MUNCAB está Aurora, do artista Babalu, produzida a partir de uma trajetória iniciada no Pelourinho, na década de 1980. Para a ministra, a presença da obra simboliza a força criativa que emerge dos territórios populares e atravessa o tempo até retornar ao país como patrimônio vivo. “É um reencontro com os nossos antepassados e com a nossa história”, disse.
A coleção foi devolvida ao Brasil pela organização sem fins lucrativos Convida, sediada nos Estados Unidos. Para o MUNCAB, o gesto representa uma ação ética e consciente de reconhecimento da centralidade da cultura afro-brasileira na formação do país.
A expectativa é que a incorporação do acervo amplie o alcance do museu e fortaleça Salvador como um dos principais pólos de preservação da memória negra no Brasil. O espaço, dedicado à cultura de matriz africana, reúne obras que abordam identidade, ancestralidade, religiosidade, resistência, além das contribuições negras para áreas como música, culinária, esportes e artes visuais.
Com a chegada das 666 obras, o MUNCAB se prepara para ampliar sua estrutura técnica e sua capacidade de preservação, além de buscar novos apoios institucionais e patrocínios.
“O desafio agora é garantir que esse patrimônio seja cuidado e acessível às futuras gerações”, afirmou Jamile Coelho.


