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“Racismo é uma tecnologia inteligente que se reinventa”, alerta secretária da Reparação no Dia de Combate à Intolerância

Com um ano de gestão à frente da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), a Ekedi e advogada Isaura Genoveva avalia o cenário de violência religiosa em Salvador e defende o termo “terrorismo” para classificar os ataques aos terreiros.

Foto: Bruno Concha

Nesta quarta-feira, 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, Salvador reflete sobre o paradoxo de ser a cidade mais negra fora da África e, simultaneamente, um território onde a fé de matriz africana ainda exige resistência diária. À frente da Secretaria Municipal da Reparação (Semur) desde janeiro de 2025, Isaura Genoveva traz para a gestão pública uma dupla perspectiva consolidada neste primeiro ano de trabalho: a técnica, como advogada especialista em políticas públicas, e a ancestral, como Ekedi do Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Terreiro da Casa Branca).

Para a gestora, a data instituída em memória de Mãe Gilda funciona como uma bússola para o que ainda precisa ser enfrentado. “O dia 21 de janeiro é um dia que faz a gente rememorar o quanto a gente ainda tem para fazer de enfrentamento ao racismo, principalmente ao racismo religioso”, afirma Isaura.

Gestão com identidade ancestral

Isaura reforça que sua administração busca imprimir os valores civilizatórios do Candomblé, como o acolhimento e a escuta, na burocracia estatal. Segundo ela, sua vivência no terreiro é inseparável de sua visão política.

“Eu, como mulher de Candomblé, nascida e criada no terreiro da Casa Branca, entendo que uma das principais motivações nossas para poder seguir é o que nós fazemos, que é cultuar e acreditar na natureza, pensar no acolhimento, numa escuta qualificada”, explica. A meta, que vem sendo desenhada desde sua posse, é garantir que “a gestão pública possa aprender com as religiões de matriz africana, que a gente possa acolher na diversidade, acolher na pluralidade”.

O diagnóstico: Racismo como tecnologia

Apesar de Salvador possuir marcadores culturais negros evidentes, a secretária alerta para a apropriação cultural e a persistência da violência. Para Isaura, o cenário exige vigilância constante porque o preconceito é dinâmico.

“Eu costumo dizer que o racismo é uma tecnologia inteligente que vai se reinventando. A cada passo que a gente dá num desmonte ou num enfrentamento ao racismo, ele surge de uma nova forma e sempre mais perversa e mais violenta com os corpos negros”, analisa.

Ela enfatiza que a violência sofrida pelos terreiros não é apenas uma questão de fé, mas de raça. “Se as pessoas de terreiro fossem de uma religião que não fosse oriunda das pessoas que foram escravizadas, consequentemente não estariam sofrendo tantas violências que sofrem até os dias de hoje”, pontua.

O Plano: Estrutura física como proteção

Para combater esses ataques, a Semur aposta no fortalecimento institucional e físico dos espaços sagrados. Um dos braços dessa estratégia é o programa Casa Odara, derivado do Morar Melhor, que realiza intervenções de até R$ 30 mil em templos religiosos, focando na regularização e dignidade estrutural.

“A gente precisa estruturar melhor nossas políticas públicas para que isso alcance de forma efetiva e gradativa”, diz Genoveva, destacando que as reformas são vitais para “estruturar socialmente o respeito a essas instituições”. Além disso, a pasta segue focada na instrumentalização das comunidades para o acesso a direitos básicos, como a imunidade tributária.

De “Intolerância” a “Terrorismo”

Quando a violência ocorre, a atuação da Semur é transversal, operando como articuladora entre as vítimas e os órgãos de justiça, como a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrim), o Ministério Público e também com a Defensoria Pública, para auxiliar no caso de acolhimento e defesa. “A Semur tem no corpo técnico de advogado, assistente social e psicólogo que atuam na forma de assistentes técnicos para dar orientação e fortalecer esses encaminhamentos”.

No entanto, a secretária propõe uma mudança na terminologia para definir a gravidade real dos ataques que a cidade presencia. “A gente não discute intolerância religiosa, a gente discute o racismo religioso, porque a gente compreende que intolerância não é o termo correto. A gente discute já o terrorismo. Porque a forma como as religiões de matriz africanas são tratadas, de fato, é com muita violência, com muita agressividade”, define.

Educação “Extra Muros”

Olhando para a continuidade do trabalho em 2026, a estratégia da Semur envolve expandir ainda mais o diálogo para fora dos espaços convertidos, atingindo o setor privado e grandes eventos.

“A gente já vem desde 2025 ampliando todas as ações que a gente já executa para fora”, conta a secretária, citando parcerias para formação de combate ao racismo e LGBTfobia, especialmente no período do Carnaval. O objetivo final é desmistificar o preconceito através do conhecimento: “O terreiro de Candomblé é, acima de tudo, de acolhimento, de cuidado, de cura. Se você tem conhecimento de que nesses espaços as pessoas estão cultuando a natureza, não deveria existir o motivo de tanto ódio”, conclui.

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