
É janeiro em Salvador, também chamada de “Salvamor” ou “terra da alegria”. Entre fetiches e encontros, praias e ladeiras, a capital baiana permanece no ranking das dez cidades mais visitadas do Brasil: o Anuário Braztoa 2025 colocou-a na 6ª posição, à frente de Fortaleza e Recife. Essa disputa turística com outras capitais nordestinas se intensifica no verão, quando o dendê, a água de coco, os tambores, a pimenta e o famoso “molho baiano” temperam a experiência de quem desembarca na cidade.
Não é apenas pelas belezas naturais — rios, mar, parques e um centro histórico tombado — que Salvador atrai turistas. A cidade carrega o título simbólico de “maior metrópole negra fora da África”, e em janeiro isso se traduz em ritmo. Ensaios de blocos afro, puxadas de cordão, lavagens de igreja, festas de Sambas e arrastões de afoxés ditam o calendário de turistas e moradores, complicando a rotina do trabalhador de carteira assinada, mais conhecidos como “CLTs”. Todo dia há um ensaio ou festa, e, embora isso soe como diversão, movimenta a economia de maneira concreta e impactante.
Verão quente, números impressionantes
O verão de 2026 ilustra esse impacto. Projeções do Ministério do Turismo em parceria com o instituto Nexus indicaram que 19% dos brasileiros que planejavam viajar naquela temporada escolheram a Bahia como destino principal. A Secretaria de Turismo do Estado estimou que o verão injetaria mais de R$ 24 bilhões na economia baiana. Salvador, principal porta de entrada, previa cerca de 3,8 milhões de visitantes ao longo da estação, amparada por um calendário robusto de festas populares, ensaios de blocos e eventos religiosos.
Os números da Virada Salvador 2026 (festa de Réveillon) ajudam a dimensionar a engrenagem. Segundo a Prefeitura de Salvador, o festival alcançou 80% de ocupação hoteleira, ante 70,56% em 2024, crescimento de 13,4%. A cidade recebeu 158.606 visitantes, entre hospedados em hotéis e em locações de temporada, e gerou R$ 337,2 milhões em receita turística. Serviços municipais transportaram 5.500 pessoas e registraram 1.540 veículos na Zona Azul; quarenta veículos ilegais foram apreendidos. Esses dados mostram como o setor hoteleiro e de transporte se beneficia do “molho baiano”.

Ao longo de 2025, Salvador já vinha em alta: de janeiro a setembro, a cidade registrou um aumento de 5% na ocupação média dos hotéis, fluxo de visitantes e receita turística, mantendo a ocupação acima de 60% em vários meses. Com a ampliação de voos internacionais e domésticos — a Salvador Bahia Airport aumentou em 14% a oferta de assentos —, a cidade se consolidou como porta de entrada do Nordeste para turistas de todas as partes.
E é no verão de Salvador que o sagrado e o profano se fundem. A Lavagem do Bonfim e a Festa de Iemanjá reúnem milhares de fiéis em cortejos e celebrações, enquanto ensaios de verão e os blocos de matriz africana movimentam bairros e avenidas. Cada tambor que toca é trabalho: músicos, roadies, dançarinos, atores, seguranças, produtores e vendedores ambulantes dependem dessa roda girar. O entretenimento, muitas vezes visto como lazer, sustenta famílias e dinamiza setores como hospedagem, alimentação, transportes e serviços.

E a economia responde. Do pequeno carrinho de acarajé ao grande hotel na orla, o circuito de festas injeta dinheiro no bairro e no estado. Em 2026, a soma de voos extras, diárias de hotel, ingressos de shows e pacotes turísticos deveria resultar naqueles R$ 24 bilhões já mencionados. É o “trocadinho” e o “trocadão” que mudam realidades: a renda de verão permite investimentos em educação, reformas em casa ou a simples garantia de um feijão mais farto no prato.
No fim das contas, a Salvador de janeiro é mais do que postais de praia ou rótulos turísticos. É uma cidade onde o azul do mar convive com o couro do atabaque, onde o sagrado da lavagem divide agenda com o profano dos arrastões de samba, afro e afoxé. Essa mistura, que faz a alegria de quem vem, também movimenta a economia local e gera trabalho para milhares. Por isso, quando se fala em “molho baiano”, não se trata apenas de pimenta e dendê: é sobre valorizar a cadeia produtiva que mantém a cidade no topo do turismo nacional e garante que a beleza da capital mais negra do país se traduza em prosperidade para quem a constrói todos os dias.


