Criada no Nordeste de Amaralina, Stephanie Ingrid leva a dança e a ancestralidade para a disputa pelo título de 2026

O Ilê Aiyê realiza neste sábado (17) mais uma edição do tradicional concurso Noite da Beleza Negra, que vai eleger a próxima Deusa do Ébano, responsável por representar a entidade ao longo dos próximos meses. Ao todo, 15 mulheres disputam o título. O Portal Umbu conversou com quatro das finalistas para compreender quais são suas motivações, a preparação para a grande noite e de que forma suas trajetórias dialogam com a cultura negra, a ancestralidade e o simbolismo que atravessam o concurso.
Antes de subir à passarela da Senzala do Barro Preto, Stephanie Ingrid já atravessou muitos outros palcos, alguns visíveis, outros íntimos. Natural de Salvador e criada no Complexo do Nordeste de Amaralina, ela carrega no corpo a dança, na voz a pedagogia da arte e, na trajetória, marcas de uma reconstrução que não começou no concurso, mas muito antes dele.
Atual Princesa do Ilê Aiyê 2025 e Princesa Malê 2024, ela reconhece que os títulos não se encerram na faixa ou na coroa.
“Carrego com orgulho e responsabilidade, entendendo que não é só sobre mim, mas sobre tudo o que represento enquanto mulher negra”, afirma.
Nem sempre foi assim. Durante anos, o espelho foi lugar de conflito. “A ideia de beleza que nos é apresentada nem sempre contempla corpos como o meu”, diz. Entre padrões impostos e silenciamentos cotidianos, o reflexo devolvia mais cobrança do que afeto. O reencontro veio com o tempo, o autoconhecimento e a ancestralidade. “Hoje, o espelho já não é mais um inimigo. É um espaço de reconhecimento, orgulho e afirmação de quem eu sou.”
Essa reconstrução foi sustentada por outras mulheres. A madrinha surge como a primeira imagem de força dentro de casa, referência construída sem discursos longos, mas a partir da postura e da existência. Na dança, vieram outras mestras. “Elas me ensinaram a ter orgulho da minha cor e a não permitir que ninguém questione ou diminua a minha existência”, conta.
A consciência racial, segundo Stephanie, não chegou de forma abrupta. Foi sendo desenhada ainda na infância, em olhares atravessados, comentários sobre o cabelo e piadas que insistiam em marcar o corpo negro como excesso ou inadequação. “Mesmo sem compreender tudo na época, meu corpo já sentia”, relembra.

Na escola, essas marcas se intensificaram. O racismo cotidiano a levou a tentar se encaixar em um padrão que não a reconhecia. “Eu sofria muito racismo e, por consequência, tentava me embranquecer”, afirma. Alisar o cabelo, evitar o sol e negar os próprios traços fizeram parte desse processo. “Quanto mais eu me forçava a estar no padrão, mais sentia que não pertencia àquele lugar.” A desconstrução foi longa, dolorosa, mas libertadora. Hoje, ela se afirma a partir das próprias raízes.
A decisão de se inscrever na Noite da Beleza Negra também não foi imediata. O desejo existia, mas estava adormecido até ser despertado pelo incentivo do marido. “Fui atravessada por coragem, desafio, cura e sonho”, resume Stephanie Ingrid, 24 anos. A experiência, que antes acompanhava apenas pela televisão, ganhou novos contornos quando passou a ser vivida por dentro. “Foi profundamente transformadora, libertadora e renovadora.”
Stephanie se define como alguém em permanente construção. “Sou processo”, diz. Para ela, a arte não é apenas profissão, mas linguagem de existência. “Tudo o que eu sou se manifesta no meu corpo, na minha dança e na forma como ocupo os espaços no mundo.”
Ao olhar para a trajetória, a palavra que escolhe é gratidão. “Eu precisei viver tudo o que vivi, tanto as coisas boas quanto as difíceis, para chegar até aqui e me tornar quem sou.” Na Noite da Beleza Negra, Stephanie leva uma história que se fez no movimento, na resistência e no pertencimento a si mesma e da sua comunidade.
Celebrando a reafirmação da identidade negra por meio da arte, da música e da resistência cultural, Stephanie Ingrid se apresenta junto a outras candidatas ao título de Deusa do Ébano na Noite da Beleza Negra 2026 neste sábado (17), na Senzala do Barro Preto, sede do bloco Ilê Aiyê. O evento será transmitido ao vivo pela TVE, TV Brasil e pelo canal da TVE no YouTube.


