Psicóloga Delsilene Damásio analisou como angústias que afloram em dezembro estão relacionadas a vivências ao longo do ano

Dezembro é culturalmente um mês de encontros, celebrações e confraternizações, mas também pode ser um período emocionalmente desafiador para muitas pessoas. Estudos indicam que fatores como aumento da pressão social por felicidade, comparações nas redes sociais e isolamento podem agravar sentimentos de tristeza, ansiedade e melancolia nesse período, às vezes de forma mais intensa do que em outras épocas do ano.
Para compreender melhor os mecanismos psicológicos que tornam o fim de ano um período de maior vulnerabilidade emocional, o Portal Umbu conversou com a psicóloga clínica Delsilene Damásio, com 10 anos de experiência, que atende principalmente adolescentes e jovens. A seguir, ela explica como as expectativas sociais, vínculos e rotinas de trabalho podem influenciar a saúde mental nesta época.
Pertencimento, comparações e redes sociais
“No final de ano, as festas ligam muito à ideia de família, e família está ligada ao pertencimento. O afastamento ou a frustração por não ter essa família idealizada ou por enfrentar lutos pode provocar impacto na saúde mental”, situa Delsilene, explicando que muitas pessoas crescem com a ideia social de que o fim de ano deve ser um momento de união familiar e harmonia. Quando essa realidade não se concretiza, surge um choque entre expectativa e experiência que pode desencadear tristeza e sensação de inadequação.
O quadro, conforme especialistas, entendido como “melancolia de fim de ano”, embora não seja um diagnóstico clínico formal, traz uma série de fatores como o acúmulo de tarefas, compromissos sociais e a pressão por estar feliz que podem gerar estresse significativo e afetar o bem-estar emocional.
Outro elemento que é somado às angústias que podem surgir neste período é o conjunto de comparações, intensificadas por imagens idealizadas de celebrações, famílias “perfeitas” e conquistas pessoais distantes do momento do indivíduo, que contribuem para sentimentos de insatisfação e baixa autoestima, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.
Ao comentar a influência de conteúdos promovidos em plataformas digitais no sofrimento psíquico, Delsilene analisa: “As redes sociais trazem a ideia de vida perfeita, o que alimenta comparações e aumenta a sensação de inadequação. Isso pode gerar tristezas, ansiedades e angústias”.

Distanciamento familiar e modelos de trabalho
Além das dinâmicas sociais, as rotinas profissionais também influenciam o estado emocional. Seja em modelos de trabalho remoto, onde a convivência com outras pessoas é limitada, seja em empregos presenciais que demandam mais horas do dia do indivíduo, as relações e vínculos podem sofrer diferentes influências, desencadeando reações comportamentais e emocionais.
“Os vínculos sociais são essenciais para a saúde mental. A ausência desses vínculos impacta muito negativamente. Com o home office e menor interação presencial, muitas pessoas ficam mais isoladas, o que pode gerar ansiedade social e até fobias de interação”, observa.
A psicóloga ressalta que, embora o trabalho remoto tenha trazido vantagens logísticas para muitos, ele também pode ter reduzido interações sociais presenciais importantes para o bem-estar emocional, um fator que se agrava no fim de ano, quando os encontros presenciais são culturalmente valorizados.
Analisando outras modalidades de trabalho, Delsilene comenta: “Muitas pessoas não conseguem estar com suas famílias por causa de escalas de trabalho extensivas. Trabalhar até tarde diminui o descanso e a proximidade com os entes queridos, impactando diretamente a saúde emocional.”
Esse relato coincide com análises que identificam como estresse ocupacional e jornadas longas, agravadas em períodos de maior movimento comercial, atuam como gatilhos de sobrecarga emocional. Há ainda o peso de quem vive distante de sua cidade natal ou de seus vínculos afetivos, por motivos de trabalho ou moradia.
O tema se relaciona com a atual discussão pelo fim da jornada 6×1, contexto que se intensifica no fim do ano, quando muitos centros comerciais ampliam seus horários de funcionamento para atender à demanda de Natal. Em grandes cidades, como Salvador, a prática do “viradão” natalino, quando shoppings passam mais de 24 horas em funcionamento, não é incomum. Em 2025, por exemplo, há centros comerciais com programação de até 32 horas, entre as 9h desta terça-feira (23), até as 18h da véspera de Natal (24).

Embora as escalas sejam divididas em turnos, esse tipo de extensão de horário, que envolve jornadas longas e períodos contínuos de trabalho, pode exacerbar sentimentos de fadiga, diminuir ainda mais o tempo de convívio familiar e aumentar o risco de desgaste psíquico, especialmente em trabalhadores que já enfrentam escalas exaustivas e têm vínculos afetivos distantes. Inserir essa realidade no contexto de fim de ano ajuda a mapear como fatores estruturais de trabalho se sobrepõem às pressões sociais e emocionais típicas deste período.
Vulnerabilidade e estratégias para lidar com a pressão emocional
O Brasil é o país com a maior prevalência de depressão na América Latina, Segundo o relatório “Depressão e outros transtornos mentais” (2024), da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o paí com o maior índice de depressão na América Latina, cerca de 5,8% de sua população, o que equivale a aproximadamente 11,7 milhões de pessoas. Quando questionada sobre grupos com maior propensão ao sofrimento emocional no período, Delsilene cita:
“Pessoas que trabalham em serviços essenciais e plantões, aqueles que vivem longe de casa e seus vínculos sociais, e quem já tem condições como depressão ou ansiedade podem apresentar alterações psíquicas.”
Ela identifica sinais como irritabilidade frequente, tristeza persistente e isolamento como potenciais indicadores de que o indivíduo precisa de atenção. Para quem percebe mudanças no próprio estado emocional, a psicóloga oferece sugestões:
“Reduzir expectativas irreais, impor limites e aceitar que nem tudo precisa ser perfeito são formas de equilíbrio. Escutar o corpo, respeitar seus limites e buscar apoio são passos importantes. Conectar-se com relações gratificantes, manter atividade física e alimentação saudável também ajuda.”
Essas recomendações são alinhadas com literatura especializada em bem-estar, que enfatiza a importância de hábitos saudáveis e de relações sociais de qualidade.
Por fim, Delsilene ressalta a importância de políticas e práticas coletivas: “Além da oferta de atenção psicossocial, é fundamental pensarmos em condições de trabalho mais humanas e em saúde mental de forma contínua, e não apenas como um efeito pontual de final de ano.”
Essa perspectiva reforça uma compreensão ampla de que a promoção da saúde mental deve ser contínua e integrada em práticas de educação, trabalho e políticas públicas, não restrita a momentos do calendário.


