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Consumidores negros devem movimentar US$ 1,7 trilhão na economia global, mas ainda enfrentam discriminação racial

Foto: Freepik

Mesmo representando um mercado com potencial de movimentar até US$ 1,7 trilhão nos próximos cinco anos, consumidores negros continuam entre os mais afetados pela discriminação racial e pelo atendimento precário em diversos setores. A estimativa é da consultoria internacional McKinsey & Company, que também aponta esse público como o mais vulnerável à falta de serviços adequados.

No Brasil, uma pesquisa inédita do Instituto DataRaça em parceria com o Instituto Akatu, divulgada durante o mês da Consciência Negra, revela que um em cada três negros afirma já ter sido vítima de discriminação racial em espaços de convivência. As situações ocorrem principalmente em lojas de vestuário (24,5%), shoppings (17%), supermercados (16,8%), órgãos públicos (5,5%) e salões de beleza (1,8%).

Embora pessoas negras representem 55,5% da população brasileira, o equivalente a cerca de 112 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, o preconceito ligado à estética ainda provoca constrangimentos em ambientes como escolas, comércios e academias. Para especialistas, essas situações refletem heranças históricas do período da escravidão, ainda presentes nas relações sociais.

Apesar das barreiras, o poder de consumo da população negra segue impulsionando a macroeconomia. A McKinsey destaca, no entanto, que esse público é também o mais propenso a relatar escassez de serviços e mau atendimento. Como resultado, 24,6% dos consumidores afirmam já ter deixado de comprar em estabelecimentos percebidos como racistas, o que representa prejuízo direto para as empresas.

Para a consultora de imagem identitária Cáren Cruz, participante da 9ª edição do Shark Tank Brasil, o preconceito estético que cerca o jovem negro precisa ser compreendido a partir de uma perspectiva histórica. Segundo ela, a superação desse cenário passa pelo letramento racial, que permite compreender como o racismo estrutura percepções e julgamentos sociais.

Cáren Cruz | Foto: Laila Andrade

“A estética do jovem negro ainda é lida de forma preconceituosa porque a sociedade insiste em enxergar o corpo negro a partir do estigma, e não da potência. A superação desse quadro exige letramento racial, ou seja, uma educação crítica sobre como o racismo estrutura nossa percepção, para que a imagem deixe de ser dispositivo de exclusão e se torne território de liberdade e dignidade”, explica. 

Dentro da consultoria de imagem identitária, a profissional revela que ressignificar a leitura social é possível através do letramento racial, a fim de compreender como o racismo molda as percepções estéticas e culturais. “Assim, recursos que estão à nossa disposição, como as vestimentas, deixam de ser meros acessórios e passam a ser discurso social; um texto visual que denuncia desigualdades, questiona estigmas e, ao mesmo tempo, (re)afirma identidades”, aconselha. 

À frente da Pittaco Consultoria e da Pittaco Academy, Cáren tem transformado a vida de mais de 4 mil afrobrasileiras, posicionando a moda como estratégia de poder simbólico. “Esse é o recurso que usamos para ocupar espaços sem pedir licença, para transformar leitura em narrativa, e para reposicionar a imagem negra não como desvio, mas como centro de potência estética e cultural. Se entendemos, através do letramento racial, as leituras sociais que criminalizam a estética negra, conseguimos entender o quadro geral de hostilidade contra nossa comunidade”, destaca a especialista. 

A relações-públicas acredita que um outro caminho a ser seguido, para romper as barreiras discriminatórias, é usar da autonomia narrativa. Quando jovens negros ocupam mídias, redes sociais, editoriais de moda e publicidade, trazendo suas histórias para o centro, Cáren afirma que esse movimento desestabiliza a lógica da estigmatização. “A mesma estética que antes era lida como marginal passa a ser reconhecida como identidade, estilo e protagonismo. Esse movimento de falar de si é também um ato de reposicionamento político e cultural”, revela. 

Trazer de volta a liberdade criativa, baseada em ancestralidade, memória e desejo pessoal, é um dos conselhos da CEO da Pittaco. “É necessário que a estética negra seja reconhecida, não como uma tendência passageira, mas como parte legítima e estruturante da cultura brasileira e global. A moda, nesse sentido, é território de invenção e de disputa, um campo em que se pode questionar o status quo, deslocar estereótipos e celebrar a pluralidade das estéticas negras e afro-brasileiras. Abrindo esse leque, poderemos ver mais e mais a presença preta nas esferas socioeconômicas, até 2030”, conclui. 

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