
Perguntar “como foi a sua semana?” a quem cumpre 40 horas ou mais costuma render sempre a mesma ladainha: trabalhei, me estressei, dormi e trabalhei de novo. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) confirma essa rotina: três em cada quatro brasileiros cumprem jornadas de 40 horas ou mais, e 32% ultrapassam as 44 horas máximas da CLT. E se a gente racializar a pesquisa, a diferença é visível. No regime 6 × 1, as desigualdades se aprofundam: 46% dos trabalhadores ganham entre R$ 1.412 e R$ 2.120, 22% recebem até um salário mínimo, e 80,7% das mulheres negras nessa escala recebem no máximo R$ 2.120. Entre todos os negros, 73% estão nesse patamar, contra 59,47% dos brancos.
Nos últimos 20 anos, políticas sociais abriram caminhos para reduzir essa disparidade. Cotas universitárias, Bolsa Família e o Pé de Meia e ampliaram horizontes para famílias que antes viviam à margem. Este último paga R$ 200 mensais a alunos do ensino médio público que mantêm 80% de presença, em até nove parcelas por ano, com bônus de conclusão e participação no Enem que podem levar a um total de R$ 9,2 mil por estudante, ao fim do ciclo. Mais de 3,2 milhões de jovens já receberam o benefício, e esse dinheiro tem melhorado as camas, as mesas e os bolsos de muitas famílias negras.
Agora, essas políticas se combinam com uma reforma tributária progressiva. A Lei 15.270/2025, sancionada em 26 de novembro, isenta de Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil e dá descontos a rendas de até R$ 7,35 mil. A mudança, válida a partir de janeiro de 2026, beneficiará mais de 15 milhões de contribuintes: 10 milhões deixarão de pagar o tributo e 5 milhões pagarão menos. Para compensar, a lei aumenta a taxação de rendas anuais acima de R$ 600 mil, alcançando cerca de 140 mil pessoas com alíquotas progressivas de até 10%. Na prática, isso coloca mais dinheiro no bolso de quem vive do trabalho e injeta recursos na economia.
Ao sancionar a lei, Lula resumiu: “muito dinheiro na mão de poucos significa miséria, mas pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de riqueza”. E os números mostram que essa redistribuição tem endereço certo: homens e mulheres negros, com jornadas longas e salários baixos, serão alguns dos maiores beneficiados. Com mais renda disponível, será possível diminuir a dependência de escalas extenuantes, bancar a educação dos filhos ou empreender.
No fim das contas, discutir jornadas exaustivas e isenção do IRPF não é mera tecnicalidade. É falar da sobrevivência cotidiana de milhões — especialmente daqueles que, há séculos, sustentam a economia sem ser plenamente reconhecidos. Uma sociedade mais justa precisa debater a redução da jornada, garantir salários dignos e investir em transferências de renda, ao mesmo tempo em que cobra mais de quem concentra riqueza. Só assim a pergunta “como foi a sua semana?” poderá ter respostas diferentes de “trabalhei, me estressei, dormi e trabalhei de novo”, e a “galinha dos ovos de ouro” prometida pela retórica do afroempreendedorismo deixará de ser promessa para se tornar realidade.


