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Mais da metade das pessoas negras afirma não saber como denunciar racismo, aponta estudo nacional

Foto: Freepik

Um estudo nacional divulgado em novembro revela que 52,2% das pessoas negras no Brasil não sabem como denunciar casos de racismo ou injúria racial, mesmo diante da alta incidência de situações discriminatórias no cotidiano. O levantamento, realizado pelos institutos Orire e Sumaúma entre julho e setembro de 2025, ouviu 423 pessoas de todas as regiões do país e aponta que o desconhecimento sobre os mecanismos formais de denúncia continua sendo um dos maiores entraves para o enfrentamento à violência racial.

Os dados mostram que, embora 59,3% dos entrevistados afirmem já ter sofrido discriminação em espaços públicos ou no deslocamento pela cidade, 83,9% nunca registraram boletim de ocorrência. A percepção de que denunciar “não adianta” aparece como uma das justificativas mais recorrentes, reforçando um sentimento de impunidade que desestimula vítimas a procurar ajuda institucional.

A pesquisa indica ainda que apenas 47,5% conhecem leis antidiscriminatórias e menos de um quarto acredita que denúncias de racismo serão devidamente encaminhadas pelas autoridades. Essa desconfiança se soma à dificuldade prática de navegar pelos órgãos responsáveis, o que cria, segundo especialistas, um “vazio de orientação” que impede o acesso à justiça.

Para a psicóloga e ativista Thais Bernardes, que integra a equipe responsável pelo estudo, o resultado expõe um abismo estrutural. Ela explica que muitos entrevistados relatam medo, falta de acolhimento e receio de reviver situações de violência ao procurar delegacias ou órgãos oficiais. A ausência de informações acessíveis, segundo ela, transforma o desconhecimento em mais um elemento do próprio racismo institucional.

Além do diagnóstico, o relatório apresenta um guia prático de denúncia, que descreve caminhos possíveis para registrar casos de racismo, como delegacias comuns ou especializadas, Ministério Público, Defensoria Pública, ouvidorias estaduais e o Disque 100. O material reforça que a denúncia pode ser feita presencialmente ou de forma on-line e que não é obrigatório estar acompanhado de advogado.

Apesar de 77,1% dos entrevistados afirmarem saber a diferença entre racismo e injúria racial, esse conhecimento raramente se traduz em ação. Para a maior parte dos participantes, a impressão é de que denunciar não levará a uma resposta concreta do sistema de justiça, o que contribui para a perpetuação do silêncio e da invisibilidade dos casos.

A pesquisa chama atenção para o papel do Estado na criação de ambientes mais seguros e acessíveis para vítimas de racismo. Campanhas de informação, capacitação de agentes públicos, atendimento humanizado e acompanhamento jurídico são apontados como medidas fundamentais para romper o ciclo da impunidade.

Sem essas mudanças, especialistas alertam que a distância entre a legislação antirracista e sua aplicação continuará produzindo um cenário em que a maioria das vítimas não sabe por onde começar, nem acredita que será ouvida. Para os pesquisadores, enfrentar esse vazio informacional é parte essencial do combate ao racismo no país.

Com informações de Agência Brasil e Revista Afirmativa

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