“Ao mergulhar nos fragmentos de memória da minha infância, percebi que minha origem não diferia muito da maioria da população negra. A distinção está até onde eu cheguei”, analisa o ativista

Com cinco décadas dedicadas ao movimento negro e às políticas públicas de cultura, o ativista, pesquisador e ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, lança seu primeiro livro, “Apenas um cidadão”, obra que costura memórias pessoais, enfrentamentos políticos e reflexões profundas sobre a experiência negra no Brasil. O lançamento acontecerá no próximo dia 3 de dezembro, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), no Centro Histórico de Salvador, espaço que dialoga diretamente com o legado que ele ajudou a construir.
O livro nasceu de um processo longo de escrita, que durou quase dois anos. Foi durante esse mergulho em lembranças de infância e juventude vividas no Solar do Unhão que Zulu revisitou sua trajetória e reconheceu que sua origem se assemelha à de grande parte da população negra brasileira. “Ao mergulhar nos fragmentos de memória da minha infância, sobretudo no período em que vivi no Solar do Unhão, percebi que minha origem não diferia muito da maioria da população negra brasileira: pobre, periférica e discriminada. A distinção está até onde eu cheguei. E isso me fez sentir feliz e alegre com os resultados”.
Além do relato biográfico, a obra também revisita episódios fundamentais da militância negra no país, trazendo reflexões sobre racismo estrutural, desigualdade, cidadania e os avanços conquistados ao longo de cinco décadas de luta. Para Zulu, compartilhar sua história é uma forma de inspirar outras trajetórias. “Minhas expectativas são de que essas histórias contribuam ou estimulem que outras pessoas busquem na educação, na consciência e na militância política as saídas para as graves desigualdades que nosso país possui desde sempre”. Ele acredita que muitos leitores irão se reconhecer nas páginas, já que o movimento negro ampliou, ao longo dos anos, as possibilidades de mobilidade social. “A mobilidade social aumentou, embora ainda seja insuficiente para a maioria da população”.

O autor afirma que sua parte favorita do livro é a que revisita infância e juventude, período que considera estruturante tanto em sua formação afetiva quanto política. “É difícil avaliar o que foi melhor, mas posso dizer que a parte que mais gosto é aquela que relata a minha infância e juventude no bairro do Solar do Unhão”. Essa dimensão emocional se entrelaça com a memória coletiva, já que sua vivência pessoal aparece sempre conectada às transformações sociais pelas quais o movimento negro tem lutado.
Ao longo da carreira, Zulu Araújo atuou em momentos decisivos da política cultural brasileira, ocupando cargos de relevância nacional e contribuindo para a valorização da cultura afro-brasileira. Essa bagagem também atravessa o livro, que recupera experiências institucionais, desafios enfrentados e conquistas registradas ao longo de 50 anos de ativismo. O lançamento no Muncab reforça essa ponte entre história individual, memória coletiva e preservação do patrimônio afro-brasileiro.

A programação contará com um bate-papo entre Zulu Araújo e o economista e pesquisador Paulo Miguez, velho companheiro de militância e trajetória intelectual. O autor fala sobre o encontro com afeto e humor. “Miguez é um amigo da vida toda. Nos conhecemos há mais de 50 anos. Vivemos e sofremos muita coisa juntos. Fomos militantes do movimento estudantil, do Partidão, trabalhamos juntos no Ministério da Cultura. Ele foi meu grande incentivador e orientador na minha dissertação de mestrado na UFBA.” Para o público, adianta que será uma conversa franca e leve. “O público terá oportunidade de ver e ouvir dois velhos amigos contando histórias que viveram juntos ao longo da vida, mediada pela publicitária Mirtes Santa Rosa, que saberá fazer as provocações necessárias”.
Com Apenas um cidadão, Zulu Araújo compartilha sua trajetória de resistência, legado e aprendizado, oferecendo ao leitor não apenas uma autobiografia, mas uma reflexão ampla sobre o país, suas desigualdades e a força histórica do movimento negro. O resultado é um testemunho potente sobre memória, luta e futuro.



