
Há quem diga que o afroempreendedorismo virou a nova galinha dos ovos de ouro do mundo financeiro. Fala‑se de “black money”, de “afro negócios” e do potencial bilionário que esses segmentos têm em cidades como Salvador, onde brotam iniciativas e marcas de pessoas negras por todos os lados. Às vésperas das celebrações oficiais do Dia da Consciência Negra, impossível não lembrar que existe uma distância entre a narrativa de valorização e a prática cotidiana. Mas pouca gente se pergunta quantos desses negócios conseguem de fato sustentar‑se no longo prazo.
Vamos aos números! Segundo levantamento do Sebrae com base na Pnad (IBGE), pessoas pretas e pardas já são 52% dos donos de pequenos negócios no país; são 15,2 milhões de empreendedores negros entre 29,3 milhões de patrões. Apesar dessa força numérica, a maior parte trabalha em setores de baixa qualificação e baixo retorno financeiro: 77,6% dos micro e pequenos empresários negros recebem até dois salários mínimos, 45,1% têm apenas o ensino fundamental e só 23,6% têm CNPJ, contra 43,1% dos brancos.
A verdade é que a sustentabilidade é o maior desafio. De acordo com o IBGE, seis a cada dez empresas que nascem no Brasil não sobrevivem aos primeiros cinco anos. Os dados do Mapa de Empresas mostram um cenário de mortalidade crescente: em 2023, 2.153.840 empresas fecharam as portas, aumento de 25,7% em relação ao ano anterior; em 2024, o número subiu para 2.436.190 fechamentos, crescimento de 12,1% sobre 2023, apesar de 4,25 milhões de novas aberturas. Ou seja, o saldo ainda é positivo, mas a sobrevivência continua difícil. Não há recorte racial nesses dados, mas sabemos que grande parte dos empreendimentos negros está nos segmentos de comércio e serviços — justamente os que lideram as estatísticas de encerramento.
É nesse contexto que a retórica do “apoie um negócio negro” ganha outros enredos. Muitos consumidores vibram com grandes e multimarcas e fazem fila para comprar roupas de luxo, mas questionam o preço da costureira do bairro. Pagam couvert e coquetéis no bar gourmet, mas pechincham no restaurante da vizinha que serve comida afetiva. A coisa aperta ainda mais nos serviços: profissionais dos campos da estética, moda, comunicação e produção são procurados em busca de “valores pequenos”, “parcerias” ou favores — porque, no imaginário de alguns, profissional mesmo é o “outro”.
No entretenimento, o roteiro se repete: para encher a casa (e ter paz), diferentes produtores negros cedem a “lista amiga”, cortesias e descontos. Muita gente que paga sem hesitar por abadás e ingressos de mega‑artistas baianos não se constrange em pedir ao amigo produtor um acesso gratuito — é como se participar de um evento de cultura negra fosse um direito e não um serviço que precisa se sustentar. Além disso, exigem estrutura e atendimento de festival milionário: reclamam do preço da bebida, do horário das bandas ou até do banheiro químico, o mesmo modelo que aceitam de bom grado nos grandes shows, que, por exemplo, rentabilizam muito mais com a portaria.
Esse duplo padrão revela como ainda é naturalizado valorizar financeiramente o mainstream e, ao mesmo tempo, desmerecer o trabalho e os custos dos eventos produzidos pela e para a comunidade negra.
Essa contradição não é só uma questão de bom senso e de lealdade; é também sobre valor percebido. Se a gente se acostuma a pedir desconto, a negociar cachês ou rifar produtos de quem está começando, como esperar que esses empreendimentos criem reservas, invistam em qualidade e durem mais do que cinco verões? No fim, a galinha dos ovos de ouro corre o risco de ser sacrificada antes mesmo de botar o primeiro ovo. Para que o “black money” deixe de ser só um slogan bonito, é preciso reconhecer o talento, pagar o preço justo e entender que fortalecer negócios negros não é caridade — é fomentar a cadeia produtiva e investir em riqueza coletiva, porque o sucesso de uma empresa negra é benefício para toda a comunidade.



Excelente reportagem! É relevante apresentar os dados e a comparação com os brancos,para valorizarmos os esforços dos nossos irmãos para manter o seu negócio.