
Foto: Joá Souza/GOVBA
Diretor geral do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb) revela a estratégia que une investimento e protagonismo negro para transformar a TVE em um case de sucesso nacional, com picos de audiência e mais de 750 mil inscritos no YouTube
Enquanto parte da mídia comercial aposta na espetacularização e na busca incessante pelo lucro, um projeto de comunicação pública na Bahia rema na direção contrária, celebrando 40 anos de história. A TVE, gerida pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), não apenas alcançou a marca de principal emissora pública estadual do Brasil — status sustentado por uma expansão que levou seu sinal a 60 milhões de brasileiros e por picos de audiência que chegaram a 20 pontos —, como se propõe a ser um espelho da identidade afro-indígena e um pilar na defesa da cidadania.
À frente deste projeto, que representa um investimento estatal superior a R$130 milhões em modernização desde 2015, está o jornalista e mestre em comunicação Flávio Gonçalves. Em entrevista exclusiva ao Portal Umbu, o Diretor-Geral do IRDEB detalha a estratégia por trás da virada histórica da emissora, o compromisso ativo com a pauta antirracista e os mecanismos que garantem o protagonismo do povo baiano na frente e por trás das câmeras.
Diretor, no seu artigo, o senhor contrasta a TV pública com emissoras que “espetacularizam a violência” e “desinformam com objetivos eleitorais”. Em uma era de fake news e polarização, qual é o papel central da TVE na defesa da democracia e da cidadania na Bahia?
Flávio Gonçalves: O papel das televisões públicas em todo o mundo é muito importante, já que são emissoras sem finalidade comercial. A TV pública responde ao interesse do cidadão, e o cidadão tem o direito de ter acesso à informação, independente dos interesses comerciais. Isso faz uma grande diferença e se reflete em áreas como cultura, saúde, educação e esporte. Como os interesses comerciais influenciam a definição de conteúdos nas emissoras privadas, é fundamental ter uma televisão como a TVE, aqui na Bahia, onde o interesse público prevalece. Ao levar informação a partir dessa perspectiva, fazemos uma grande diferença no dia a dia das pessoas.
A TVE tem sido posicionada como a principal emissora pública estadual do país. Vemos dados como a expansão do sinal para 60 milhões de pessoas e picos de audiência com o futebol. Na sua visão, qual foi o ponto de virada? Foi o investimento em tecnologia, a aposta em conteúdo local ou uma mudança na programação que conectou a TVE com um público que não se sentia representado?
Flávio Gonçalves: Nos últimos anos, a TVE passou por um conjunto de investimentos em tecnologia, infraestrutura e modernização de equipamentos. Esse investimento foi fundamental e fez com que a TVE, hoje, seja mais moderna do que muitas emissoras comerciais, sendo, sem dúvida, a televisão pública mais moderna do Brasil. Contudo, foi igualmente importante investir em uma estratégia de programação diversa e plural, que mostra a realidade da capital, mas também do interior, afinal, a Bahia tem 417 municípios. Através do esporte, das notícias, de filmes, documentários, séries gravadas na Bahia e eventos culturais, as pessoas começaram a se conectar e a se ver na tela. Essa diversidade de programação atraiu uma nova audiência.
Hoje, o canal da TVE no YouTube tem 750 mil inscritos, o maior entre as emissoras de televisão da Bahia. Isso mostra o quanto as pessoas estão conectadas com a TV pública, para além da TV aberta. O fato de, em alguns momentos, sermos a emissora mais assistida da Bahia, à frente de todas as comerciais, é resultado de uma estratégia em que as pessoas se identificam. Ninguém assiste a algo se não se identificar, podendo simplesmente trocar de canal.

Foto: Mateus Pereira/GOVBA
O senhor afirma que a TVE reflete a “identidade afro-indígena do nosso povo”. Na prática, como a programação da emissora trabalha ativamente para ser antirracista e combater os estereótipos reforçados pela mídia comercial?
Flávio Gonçalves: A TVE assumiu esse compromisso. Isso é visível diariamente nos nossos apresentadores e repórteres, que são homens e mulheres negros. Também se manifesta em eventos culturais, como no Carnaval, onde blocos afro, afoxés, de samba, reggae e indígenas têm espaço de destaque na nossa transmissão. Exibimos diariamente filmes, séries e documentários que retratam a cultura e os personagens da história afro-indígena da Bahia.
Temos mostras de cinema indígena, festivais de cultura negra e transmitimos até a Copa Indígena de futebol. Você não vê um indígena comentando uma partida de futebol em outras emissoras como vê na TVE. Isso, sem dúvida, é ir contra a cultura racista que foi constituída ao longo de séculos. Ninguém nasce racista, mas há uma cultura que torna as pessoas preconceituosas. Quando a TVE leva esse conteúdo para a casa das pessoas, está criando uma outra cultura: a do respeito. Estamos contribuindo para construir uma sociedade menos racista e menos preconceituosa.
Como a TVE fomenta o protagonismo de profissionais negros e indígenas por trás das câmeras — como diretores, roteiristas, técnicos e jornalistas?
Flávio Gonçalves: A TVE, sem dúvida, garante esse protagonismo. Fizemos um censo recentemente que apontou que mais de 80% dos trabalhadores do IRDEB são profissionais negros. Na prática, eles estão ocupando todas as funções: diretores, roteiristas, técnicos, jornalistas, operadores de áudio, locutores, e também na parte administrativa. Contamos também com profissionais indígenas, obviamente em menor número, mas eles estão aqui. Além de estarem por trás das câmeras, o protagonismo se reflete no conteúdo que produzimos, onde entrevistados, fontes e personagens das nossas séries e documentários são, em sua maioria, da população afro-indígena baiana.

Foto: Joá Souza/GOVBA
O modelo de financiamento da TVE depende de investimentos estatais. Existe debate sobre a criação de outras fontes de fomento para fortalecer a autonomia financeira da emissora a longo prazo?
Flávio Gonçalves: A televisão e a rádio públicas, em todos os países, dependem de recursos públicos. Nosso entendimento é que, assim como uma escola ou um hospital público, a comunicação pública é um direito do cidadão. Se é um direito, cabe ao Estado garantir seu funcionamento. Aqui na Bahia, o governo tem investido fortemente para que a TVE atinja esse grau de excelência. É obrigação do Estado investir em comunicação, arte, cultura e esporte, e tudo isso chega à casa das pessoas através da TV pública.
Esses investimentos retornam à sociedade. Quando a TVE transmite todos os jogos do Campeonato Baiano, o cidadão economiza o dinheiro que gastaria com ingresso, viagem e hospedagem para acompanhar seu time. Se um cidadão tivesse que comprar ingresso para todos os shows que a TVE transmite, gastaria muito mais do que hoje é investido, por cada cidadão, no funcionamento da televisão.
Como jornalista e mestre em comunicação, o que o move pessoalmente na missão de dirigir a principal emissora pública estadual do país? Qual marca o senhor espera deixar nesse processo?
Flávio Gonçalves: Tenho muito orgulho e satisfação de trabalhar em uma televisão que tem essa história e esse carinho da população. Acredito no papel transformador da comunicação, do conhecimento e da cultura. Sei que outras emissoras, muitas vezes, apenas incentivam o consumo, a competição, a violência e a “baixaria”. Isso não acontece aqui. Eu me movo todos os dias, trabalhando intensamente há quase 10 anos, para que a TVE ofereça um conteúdo que pode, de fato, melhorar a vida das pessoas.
A marca que espero deixar é a de que as pessoas assistam, gostem e valorizem a televisão pública da Bahia. Isso já se reflete nos elogios e na audiência. Fico feliz de poder dizer que colaboro com uma televisão pública que, em alguns momentos, é líder de audiência, mostrando que nossa estratégia de programação diversa e plural tem sido aprovada pelos baianos e baianas.


