O segundo dia do Encontros Negros 2025 – Salvador aconteceu nesta sexta-feira (7), no Cineteatro 2 de Julho, com duas mesas que reafirmaram o compromisso do projeto em promover o pensamento negro contemporâneo e fortalecer o diálogo entre cultura, comunicação e cidadania. Com público diverso e presença marcante de estudantes de escolas públicas, o evento mostrou, desde as primeiras falas, a força das vozes que constroem o presente e o futuro da negritude brasileira.

A Mesa 1 – “Além das Quatro Linhas – Racismo no Esporte em Campo Aberto” contou com Tiago Reis e Marcos Valentim, mediados por Marina Aragão. Durante suas explanações, o repórter Tiago Reis reafirmou a importância do evento em discutir o racismo e educar quem, porventura, não tenha conhecimento sobre o tema. “O Encontros Negros em Salvador me faz acreditar em diálogos possíveis e punições mais severas. Quando você cria uma lei e não a faz cumprir, termina dando uma mensagem ruim para a sociedade, reforçando a impunidade. O infrator dentro de campo pode cometer o crime que não será preso”. O repórter baiano reforçou sua preocupação com relação a essas atitudes em campos de futebol: “Acho que a gente precisa tornar as nossas leis mais efetivas, e que elas sejam cumpridas e fiscalizadas, para que vejamos punições para quem é infrator, quem é racista, que paguem pelo crime que cometeram”.
A mesa trouxe ainda reflexões sobre o papel da educação antirracista para além da linha do gol. O também repórter e jornalista Marcos Valentim enfatizou que chegar ao Encontros Negros 2025 é um compromisso, não algo sazonal: “É muito honroso participar desse evento aqui em Salvador. Saio maior do que entrei. Foram vários assuntos pertinentes, já que são poucos os eventos que falam sobre o esporte, como se no esporte não houvesse negros. Pelo contrário, as maiores áreas com presença de pessoas negras são o esporte e a música”. Ainda sobre sua participação, Valentim destacou a relevância do esporte como ferramenta de conscientização: “O esporte é muito importante para a população saber o que está acontecendo e cobrar o que precisa ser cobrado das autoridades. Estou muito feliz e que venham a quinta, a sexta, a décima edição dos Encontros Negros. Seja falando ou observando, será grandioso também”.

Atento às falas dos jornalistas de esporte, Zulu Araújo falou sobre a importância de se abordar o racismo no esporte, na literatura e na música. “Encontros Negros produzidos por mulheres negras significa que a gente deu um passo adiante. Um passo importante por estarmos discutindo versões, aspectos, visões de um racismo contemporâneo que insiste em existir. É mais um passo nessa luta que não acaba nunca, combater o racismo e promover a igualdade. O Portal Umbu está de parabéns por ter coragem, determinação e sabedoria em fazer com que a luta contra o racismo alcance todos os rincões possíveis e necessários”.
O advogado criminalista e professor da Universidade Federal da Bahia, Dr. Marinho Soares, ressaltou a importância de trazer reflexões sobre a política antirracista desde a infância: “Estou vendo aqui, nesta edição dos Encontros Negros, falas atentas sobre racismo no esporte e, especificamente, falando para jovens sobre o futebol, que é o esporte que mais chega à população mundial e, no Brasil, é um esporte de massa. Essas reflexões sobre a questão racial e o quanto isso pode valorizar a nossa sociedade são muito importantes, porque o Brasil, e especialmente a nossa Bahia, só será um Estado profícuo, onde as pessoas viverão com qualidade, quando for um Estado justo e igualitário”.
Na Mesa 2 – “Os Negros, a Mídia, o Consumo e a Riqueza no Brasil”, o antropólogo Michel Alcoforado, mediado pela jornalista Cleidiana Ramos, debateu o impacto da comunicação e das narrativas criadas no cenário de raça, classe e gênero quando o tema é o que significa ser rico no Brasil. Alcoforado destacou como o discurso sobre pobreza e riqueza se torna uma falácia na rotina brasileira: “Boa parte da desigualdade social brasileira se sustenta sobre a naturalização da posição. Ao contrário de um amigo americano, que onde você senta com ele tem vontade de vender pra você como ficou rico, no Brasil, os ricos vão tentar dizer que ficaram ricos desde sempre”. Ele exemplificou com situações da elite baiana: “Se você chega no Corredor da Vitória e pergunta: ‘Como vocês compraram esse apartamento?’, a resposta será: ‘Tenho negócios’. Se você perguntar: ‘Como comprou essa casa na Chapada Diamantina?’, a resposta será: ‘Era da vovó’. Ninguém lhe contará, se você perguntar, quem era essa tal vovó, se essa vovó era sinhá, ninguém lhe contará quem roubou quem. Ninguém lhe contará nada”.
A jornalista e mediadora Cleidiana Ramos destacou a importância de eventos como o Encontros Negros pela capacidade de reunir pessoas de diferentes áreas do conhecimento: “O grande barato de eventos como esse é reunir pessoas negras de várias áreas. Isso significa que estamos produzindo conhecimento e temos uma oportunidade única de mostrar o que fazemos nas mais diversas áreas: seja no jornalismo, na antropologia, no esporte ou na música. Os Encontros Negros vieram pra ficar”. Ela também ressaltou o papel de parceiros e apoiadores que fomentam o projeto: “Ganhei um presentão, por exemplo, de bater esse papo sobre um tema que a gente nem para pra pensar, ‘o que é ser rico e o que é coisa de rico’, já que existem tantos atravessadores como o racismo e a desigualdade. Vida longa aos Encontros Negros”.

Na plateia do Teatro Irdeb, a deputada federal Lídice da Mata (PSB), natural da cidade de Cachoeira, Recôncavo da Bahia, destacou a importância de se realizar eventos como o Encontros Negros em Salvador: “É de grande importância eventos como esse, destacando temas como racismo no esporte, por exemplo, diante de uma plateia repleta de jovens. Você faz uma formação de uma consciência antirracista, extremamente necessária em nosso país e no mundo”. A deputada ressaltou ainda os trabalhos da Bancada Negra e Parda na Câmara dos Deputados, que apresentou uma PEC propondo a criação de um Fundo de Reparação Econômica para a população negra no Brasil. “É importante investir na formação, na qualificação profissional da juventude negra, assim como formar sua consciência de que racismo é crime; que a juventude tem que levantar a cabeça e tem direito a uma vida digna”. Para ela, essa é a consciência que precisamos oferecer aos jovens negros e à sociedade brasileira como um todo: o racismo é inaceitável.
O Encontros Negros é uma realização da Umbu Comunicação & Cultura, com apoio da Associação Baiana do Mercado Publicitário (ABMP), da Livraria LDM, da Imagem Digital, do Bloco Alvorada, da produtora DMTZ e do Governo do Estado da Bahia, por meio da parceria com o IRDEB. Desde sua primeira edição, o evento atua como plataforma de valorização da intelectualidade negra, promovendo diálogos entre arte, pensamento e sociedade, e consolidando Salvador como território de produção e difusão do pensamento negro brasileiro.


