
Na canção Into My Novela, a cantora paulistana Céu dá o recado: “Eu sou a protagonista da minha novela”. A letra da música dialoga diretamente com a proposta que deu origem ao coletivo Slam das Minas Bahia há oito anos, que é colocar as mulheres como peça central de suas próprias narrativas. Como explica a escritora e produtora Negafyah, uma das idealizadoras do coletivo, “o Slam das Minas surge da necessidade de trazer mulheres para as batalhas de poesia, para que elas fossem protagonistas da própria história”.
O Slam das Minas Bahia foi criado em 2017 e nesses oito anos de existência, o coletivo cresceu e se tornou referência para jovens poetas do estado. O grupo foi pensado para criar um espaço de valorização da presença de mulheres cis, trans e dissidentes na literatura, através do slam (batalhas de poesia). Anualmente, o Slam das Minas Bahia promove diversos eventos em espaços da capital baiana para selecionar a poeta que vai representar o estado no Slam BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada.
O Portal Umbu conversou com uma das idealizadoras do Slam das Minas Bahia. Em entrevista à Jadson Luigi publicada na íntegra abaixo, a escritora e produtora Negafyah falou sobre as inquietações que motivaram a criação do coletivo, analisou a importância de um espaço que celebra o protagonismo feminino e antecipou os próximos passos do Slam das Minas Bahia. Confira a entrevista completa:
Portal Umbu: Sabemos que o movimento acontece em Salvador há oito anos e nasceu como espaço de empoderamento para mulheres negras e periféricas, Como foi o momento de criação e quais inquietações ou sonhos motivaram esse início?
Negafyah: As inquietações surgiram porque existia ali uma disparidade no cenário feminino das batalhas de poesia. Eu fui vice-campeã do Campeonato Nacional em 2016 e, quando cheguei lá fora, vi um cenário em que havia muitas mulheres batalhando. Aqui em Salvador, nas batalhas em que eu iria competir, a predominância era masculina. Então, quando dialoguei com as meninas de São Paulo, percebi a possibilidade de criar um Slam das Minas feminino.
Juntamente com Ludmila Singa, tivemos a ideia não apenas de criar o cenário para batalhas de poesia, mas também de pensar em como poderíamos potencializar outras áreas artísticas. Desde 2017 e ainda em 2025, buscamos diminuir a desigualdade tanto no campo artístico quanto no campo de trabalho nesse espaço feminino.
O Slam das Minas surge dessa necessidade de trazer mulheres para as batalhas de poesia, para que elas fossem protagonistas da própria história e revelassem novas artistas, como cantoras, performers e empreendedoras. O Slam das Minas também como escritoras, pois, em 2022, lançamos o livro ‘Ancestralitura – Poemas com Mel e Dendê’, reunindo 10 poetas, muitas delas sem textos publicados anteriormente e que, por isso, não se consideravam escritoras.
Assim, o Slam das Minas nasce em 2017 para acolher essa força feminina e esse talento feminino, para dar visibilidade às potências de mulheres, especialmente mulheres negras.
Portal Umbu: Ao longo desses oito anos, o coletivo passou por diferentes fases e desafios. Que momentos vocês destacariam como decisivos para consolidar o Slam das Minas na cena cultural da Bahia?
Negafyah: Eu acho que o primeiro ano, em 2017, foi muito decisivo, porque não existia um movimento cultural em Salvador capaz de reunir mais de 500 pessoas em uma praça pública para um evento gratuito, cuja grade fosse majoritariamente feminina ou, em alguns casos, 100% feminina.
Era um evento sem apoio financeiro estatal ou patrocínio formal, contando apenas com o apoio financeiro da própria comunidade. Em 2017, divulgamos um vídeo no Facebook e, durante seis a sete meses, conseguimos reunir mais de 500 pessoas em uma praça pública para ouvir mulheres, mulheres negras e mulheres trans recitando seus poemas e poesias, e cantando suas músicas.
Houve, assim, uma verdadeira divisão de águas nesse primeiro ano. Mas também gosto de destacar 2022, quando celebramos nossos cinco anos de caminhada com o lançamento do nosso primeiro livro. E agora, em 2025, comemoramos os oito anos do Slam das Minas, logo após realizar uma turnê internacional por Cabo Verde e pela Europa. Em Cabo Verde, promovemos uma formação com universitários, e, em Portugal, lançamos a segunda edição do nosso livro.
Acredito que esses três momentos são grandiosos para o Slam, pois trazem ao cenário cultural e artístico de Salvador uma inovação e um novo movimento de batalhas de poesia.

Portal Umbu: O Slam das Minas Bahia é pensado como espaço seguro e potente para mulheres cis, trans e dissidentes expressarem suas artes e experiências, qual é o impacto de um espaço exclusivamente feminino no formato do Slam das Minas?
Negafyah: Eu costumo dizer que o Slam das Minas é realmente esse espaço que é nosso — a nossa frase, o nosso slogan, o nosso portal —, que é acolhimento e potência na rima. Porque acolhe mulheres em sua totalidade. Acolhe mães que vão com seus filhos; desde o nosso primeiro ano, recebemos mulheres que se sentem seguras nesse ambiente. Acolhe também mulheres LGBTQIAPN+, que podem estar ali e expressar sua sexualidade, seu afeto por outras pessoas e potencializar a sua arte.
O Slam das Minas é um espaço onde as mulheres são protagonistas, onde elas assumem o protagonismo de suas histórias. Os homens também estão presentes, não são excluídos — pelo contrário, gostamos e queremos muito que eles estejam ali, mas para ouvir, aprender com o que temos a dizer e compreender que esse é o nosso protagonismo.
O Slam das Minas vem para quebrar essa barreira e dizer: “Olha, este é o espaço onde você será valorizada, onde será potencializada. Esteja aqui conosco”.
Portal Umbu: Neste ano, uma adolescente de 15 anos venceu a primeira edição da temporada: como esse momento foi vivido por vocês, enquanto coletivo e como inspiração para outras jovens?
Negafyah: A gente ficou muito feliz porque é a comprovação de que o nosso trabalho, ao longo desses oito anos, está sendo bem feito. Imagine que, quando o Slam surgiu, essa adolescente tinha apenas sete anos. Ao longo desse período, o Slam vem plantando sementes para que, hoje, uma nova geração de poetas surja e para que a força do Slam, que é um movimento do hip hop reconhecido pelo presidente da República, não se perca. É a concretização de que o trabalho do Slam das Minas está sendo muito bem executado e de que uma nova geração de poetas terá condições de sustentar os próximos oito anos de trajetória do coletivo.
Esse é o nosso objetivo: não apenas circular entre nós mesmas, mas criar um espaço onde crianças, adolescentes, jovens e pessoas da melhor idade possam se sentir seguras para recitar ou declamar seus textos, serem aplaudidas, quem sabe receber uma nota 10 e levar uma premiação para casa. Que isso sirva de inspiração para que continuem escrevendo cada vez mais e nos representando.
É muito importante que haja a possibilidade, por exemplo, de uma adolescente de 15 anos chegar à final do Slam das Minas, representar o coletivo no campeonato estadual e, quem sabe, alcançar o campeonato nacional com a oportunidade de chegar ao internacional. É uma gama de oportunidades que o Slam e as batalhas de poesia podem proporcionar na vida de uma poeta.
Portal Umbu: Em 2025, o Slam das Minas Bahia está celebrando oito anos com grandes projetos. Vocês podem compartilhar mais sobre os eventos em andamento como a temporada de batalhas na Casa do Benin e nos espaços por Salvador?
Negafyah: Em maio de 2025, realizamos a turnê Ancestral Leituras, passando por Cabo Verde e Portugal. Em Cabo Verde, promovemos a formação Vozes em Poesia, na qual os estudantes puderam aprender sobre as batalhas de poesia, se aprofundar no processo de escrita e na criação poética, culminando em uma batalha de poesia que construímos junto com eles. Foi um exercício prático e uma troca muito importante para retornarmos à nossa ancestralidade.
Foi um sonho coletivo realizado: a primeira viagem internacional das três integrantes do coletivo — eu, Má Reputação e Ludmila Singa. Ir para Cabo Verde teve um significado muito especial e potente, por ser no continente africano. Essa experiência abriu um portal de possibilidades de troca. Fomos muito bem acolhidas naquele território, dentro daquele país.
Em Portugal, a experiência também foi marcante. Levamos a segunda edição do nosso livro, lançado exclusivamente no Museu do Aljube, instituição especializada em processos de ditadura de países de língua portuguesa. Apresentamos a obra a um público externo, o que foi muito importante para compreendermos que o Slam das Minas Bahia já está alcançando o mundo. Como dizem, “a Bahia é o mundo” — e o Slam das Minas Bahia também é o mundo, pois chegamos a Cabo Verde e agora a Portugal com nosso lançamento, que reuniu brasileiras e portugueses interessados em nos ouvir e adquirir nosso livro. Foi um processo essencial para o intercâmbio cultural e um marco na história do coletivo.

Ao longo deste ano, também participamos de diversas festas literárias, reforçando nossa presença enquanto coletivo e representantes do Slam das Minas.
A temporada de oito anos do Slam das Minas está acontecendo de forma itinerante. No primeiro ano, começamos na Praça do Conjunto ACM, no Cabula, porque, em 2017, já entendíamos que os eventos precisavam se descentralizar. Salvador concentra grande parte de suas atividades culturais no centro da cidade. Em 2025, retornamos com a temporada graças ao edital da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e estamos circulando por diferentes bairros.
A primeira batalha de poesia ocorreu na Casa do Benin, reunindo mais de 100 pessoas e trazendo como destaque a poeta Luna, campeã de Feira de Santana. A segunda edição aconteceu no Espaço Cultural Alagados, marcando presença na Cidade Baixa e reforçando a importância de sair do eixo central. A terceira edição será na Praça do São Caetano, priorizando territórios periféricos que tenham ligação com o movimento e possam ser potencializados.
Também passaremos novamente pela Praça do Conjunto ACM, na quarta edição, local onde tudo começou. A grande final será no centro da cidade. Essa temporada itinerante busca democratizar a arte, permitindo que não apenas as pessoas da periferia se desloquem ao centro para ter acesso à cultura, mas também que o público do centro vá até a periferia e perceba que há produção cultural potente nesses territórios.
Está sendo um ano bastante produtivo, no qual almejamos alcançar diversos lugares com nossos projetos, sempre com organização, competência e união.
Portal Umbu: Vocês lançaram uma iniciativa para apoiar poetas do interior da Bahia, oferecendo seleção, transporte, hospedagem e ajuda de custo, como funciona esse projeto e qual o impacto desejado?
Negafyah: Em 2022, trouxemos também poetas do interior da Bahia para participar da temporada de cinco anos. Houve uma chamada para poetas do interior por meio de um edital aberto no Instagram, onde artistas de toda a Bahia puderam se inscrever. A curadoria, feita por mim e por Ludmila Singa, selecionou as poetas a partir dos vídeos e textos enviados para integrar a temporada do Slam das Minas Bahia. Assim, a cada edição, até setembro, essas poetas foram escolhidas para estar conosco.
Buscamos contemplar diferentes regiões do estado. As participantes recebem hospedagem, passagem, alimentação, uma ajuda de custo e ainda têm a possibilidade de competir e conquistar premiações em dinheiro para o primeiro, segundo e terceiro lugares. Fizemos essa chamada para garantir que o Slam das Minas Bahia faça jus ao seu nome e não se restrinja às poetas da capital.
Nosso objetivo é também incentivar que essas artistas, ao voltarem para suas cidades, movimentem o cenário local, promovendo Slams em seus territórios. Queremos criar um ambiente de vivência e aprendizado, para que essa experiência seja reproduzida e, assim, possamos ampliar o número de Slams femininos por toda a Bahia.
Portal Umbu: Vocês também lançaram um podcast, como está sendo o investimento em uma nova plataforma?
Negafyah: O Enu Podcast é um projeto audiovisual e também disponível apenas em áudio, presente nas plataformas YouTube e Spotify. O primeiro tema escolhido foi Enu, que significa “boca” em iorubá. A proposta foi explorar o poder da palavra e da oralidade nesta primeira temporada, convidando escritores, poetas e artistas da música, todos com ligação direta a esse universo.
Participaram nomes como Nelson Maca, Hamilton Borges, Puma Camilê, Sued Nunes, entre outros, que integram movimentos de escrita e de oralidade. O Enu Podcast surge para protagonizar não apenas o universo feminino, mas também para promover a junção com o universo masculino, valorizando a união dos gêneros. Trouxemos pessoas em sua totalidade para discutir a oralidade e as formas como esse poder pode ser aplicado.
A temporada foi dividida em quatro episódios, com direção da LAABS e de Zanza, direção de arte e produção criativa de Negafyah e produção executiva de Ludmila Singa. Assinamos este material com muito carinho, entendendo que o Slam das Minas estava criando mais uma plataforma. Há muito tempo, o coletivo rompeu a barreira de ser apenas uma batalha de poesia: hoje é uma plataforma que abrange um selo literário, formações, livros e, agora, o Enu Podcast.
Recomendo que o público assista à primeira temporada do Enu Podcast, disponível no YouTube — com um visual belíssimo — e também no Spotify.

Portal Umbu: Quais são os próximos passos do coletivo após as batalhas e seleções deste ano? Há novos projetos, parcerias ou formatos em desenvolvimento?
Negafyah: Os próximos prazos do Slam das Minas é sempre tá se reorganizando para que a gente tenha a possibilidade de realizar a batalha anualmente, porque isso é uma programação que acontece anualmente. A partir de outubro, também vamos oferecer formações em escolas públicas de Salvador e distribuir cartilhas sobre o processo do Slam, incentivando estudantes a criarem seus próprios eventos. Nessas formações, eles vão aprender, de forma prática, como se produz um Slam.
Nesta temporada, trouxemos poetas de outros estados. Na terceira edição, receberemos Sabrina Martina, poeta e escritora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que participará de um painel sobre quilombos e acolhimento, ao lado de Negafyah e Camila França, na Praça do São Caetano. Na quarta edição, teremos a poeta Nati, do Acre. Esses convidados de fora também ministrarão oficinas em escolas públicas e participarão dos painéis que compõem a programação dos oito anos do Slam das Minas, que inclui batalhas de poesia, oficinas e debates.
Na primeira edição desta temporada, o painel foi mediado por Ludmila Singa e contou com a presença de Meg Oliveira e Tiffany Odara. Já o segundo painel, “Arte é Comunicação entre Vozes e Telas”, foi mediado por Nanda Lisboa, com a participação de Samira Soares e Amanda Soares. A quarta edição terá uma mesa sobre meios de produção literária, mediada por Má Reputação, com Nati e Milena Brito.
Assim, a temporada se destaca não apenas pelas batalhas, mas também pelas formações em escolas públicas — abordando performance, escrita e produção de Slam — e pelos painéis que se estendem ao longo da programação.
Já estamos conduzindo o processo de curadoria para que, no próximo ano, a batalha de poesia esteja oficialmente no calendário cultural da Bahia, garantindo apoio contínuo. Nossos projetos futuros sempre miram novos objetivos e estratégias, para que este coletivo, que atua há oito anos, possa chegar aos 10 e, quem sabe, aos 20 anos de história.


