A expectativa para o título em Cannes já se desenhava desde a montagem da obra, segundo Silvia Cruz, fundadora da Vitrine Filmes, que distribui os filmes do diretor no Brasil desde 2016

Wagner Moura conquistou neste sábado (24) o prêmio de Melhor Ator por sua atuação em O Agente Secreto, enquanto Kleber Mendonça Filho foi reconhecido como Melhor Diretor pelo longa, no Festival de Cannes, na França.
Foi a primeira vez que um filme brasileiro levou o prêmio de Melhor Ator em Cannes.
A expectativa de que O Agente Secreto fosse premiado cresceu na última semana, após o longa ser ovacionado por mais de dez minutos na sua sessão de estreia, em 18 de maio, e fechar dois importantes acordos de distribuição.
A Neon, responsável pelo lançamento de Parasita e Anatomia de uma Queda, será a distribuidora de O Agente Secreto nos Estados Unidos. Já a Mubi, que distribuiu Anora, exibirá o filme no Reino Unido, Índia e América Latina — exceto no Brasil.
Antes da premiação principal, o longa também venceu um dos prêmios paralelos do festival: o de Melhor Filme da Seleção Oficial pelo júri da Fipresci, principal associação internacional de críticos de cinema, composta por jornalistas de cerca de 50 países. Embora não faça parte da lista oficial de Cannes, esse prêmio é altamente respeitado no meio cinematográfico.
O júri justificou a escolha da seguinte maneira:
“Escolhemos um filme que possui uma generosidade romanística e épica; um filme que permite digressão, diversão, humor e caráter para evocar um tempo, um lugar e uma história rica, estranha e profundamente preocupante de corrupção e opressão.”
Mendonça Filho já é um nome consolidado em Cannes. Seus três últimos longas — Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023) — também foram exibidos no festival. Bacurau, inclusive, venceu o Prêmio do Júri, a terceira categoria mais importante da competição oficial.
Ambientado em Recife, em 1977, durante a ditadura militar brasileira, O Agente Secreto acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna à sua cidade natal após anos fora, em busca de paz. No entanto, ele descobre que Recife esconde perigos e segredos inquietantes.
A recepção da crítica foi entusiástica. A Variety destacou a capacidade do diretor de “nos transportar de volta àquela época, com seu calor opressivo e paranoia”. Já Nicholas Barber, crítico da BBC, classificou o filme como “um thriller político estiloso e vibrante”, apontando-o como um possível candidato ao Oscar.
Segundo Silvia Cruz, fundadora da Vitrine Filmes, que distribui os filmes de Mendonça Filho no Brasil desde 2016, a expectativa de estreia em Cannes surgiu ainda durante a montagem do filme:
“Desde o início, já pensávamos que esse seria o primeiro festival que iríamos tentar, tanto pelo histórico dos outros filmes do Kleber no evento quanto pelo cronograma de finalização, que foi perfeito para estar pronto a tempo.”
O festival exige que o filme seja inédito, ou seja, nunca exibido anteriormente em outros festivais ou na internet, para competir pela Palma de Ouro.
Silvia Cruz reforça:
“Cannes é uma vitrine poderosa. Estar nesse festival certamente traz visibilidade e impulsiona toda a carreira do filme.”
Frevo na Croisette
Um dos momentos mais comentados do festival foi a passagem da Orquestra Popular do Recife e do grupo Guerreiros do Passo pelo tapete vermelho. O vídeo do cortejo, com a comitiva brasileira — incluindo Wagner Moura arriscando passos de frevo —, viralizou nas redes sociais.
A ideia de levar o frevo para a icônica Croisette partiu da própria equipe de distribuição da Vitrine Filmes, ainda na fase de montagem do longa.
“Um dia me veio essa ideia: ‘E se a gente fizesse um carnaval em Cannes?'”, conta Bernardo Lessa, gerente de lançamento da distribuidora.
Sabendo que o Brasil seria o país homenageado do ano, a equipe buscou diversos parceiros, mas enfrentou recusas:
“Tentamos várias marcas, vários parceiros — recebemos muitos ‘nãos’. Mas não queríamos desistir, porque sabíamos que podia dar certo”, relata Lessa.
O plano ganhou forma com o patrocínio da Embratur, da Secretaria de Cultura de Pernambuco e da marca Sol de Janeiro.
“Ninguém da banda tinha passaporte. A confirmação do investimento veio pouco tempo antes, então tivemos que correr com tudo. Não era só trazer a banda, mas a cultura: o bolo de rolo, a música, as sombrinhas de frevo. Foi toda uma produção. E o resultado foi muito maior do que a gente esperava.”
Lessa complementa:
“Cannes foi muito bom para o filme — a recepção foi excelente. Ele já foi comprado pela Neon e pela Mubi. Isso é ótimo porque dá aos produtores uma garantia de retorno financeiro e também de distribuição, especialmente nos Estados Unidos, onde é essencial ter um distribuidor local para as maiores premiações.”
Intervenções no tapete vermelho, inclusive para promover mensagens políticas, não são novidade em Cannes. O próprio Kleber Mendonça Filho já havia utilizado esse espaço, no lançamento de Aquarius, para protestar contra o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.
Marketing e visibilidade
Para a jornalista Ana Paula Sousa, pesquisadora e colunista especializada em cultura, o marketing digital foi fundamental para ampliar a distribuição de O Agente Secreto:
“A partir do momento em que o filme leva o frevo para o tapete vermelho, aumenta a chance de sair matéria em veículos internacionais. Eventualmente, um distribuidor de outro país pode se interessar pelo filme.”
Ela destaca:
“Vivemos a era das redes sociais. E acho que Kleber, embora seja um cineasta associado ao chamado ‘cinema de autor’, já mostrou há muito tempo que sabe lidar muito bem com as redes.”
Segundo Sousa, essa estratégia também aguça a curiosidade do público:
“Um filme é feito para ser visto por diferentes públicos — mas sempre para ser visto. Ele precisa mobilizar a atenção.”
Ela relembra que a campanha bem-sucedida de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional e que levou quase seis milhões de brasileiros aos cinemas, começou no Festival de Veneza.
“É natural que o filme do Kleber tente também se aproveitar desse bom momento do cinema brasileiro.”
Sousa conclui:
“Não é que essa estratégia cria coisas que não existem, mas se aproveita de elementos reais para aumentar a visibilidade e despertar interesse.”
Por que Cannes importa?
Segundo Ana Paula Sousa, a seleção para disputar a Palma de Ouro é uma “conquista comparável a uma final olímpica”. A visibilidade conquistada em Cannes costuma se traduzir em novas oportunidades para filmes produzidos fora dos cinco maiores estúdios de cinema — Universal, Paramount, Warner Bros., Disney e Sony.
“Não existe nenhum festival no mundo com tanta imprensa. Nenhum tem um volume de matérias publicadas tão grande quanto Cannes.”
Além do glamour, Cannes é também um importante mercado: o Marché du Film, evento de negócios do festival, é o maior polo de compra e venda de direitos cinematográficos do mundo.
“Cannes ainda é a principal vitrine de cinema para filmes não hollywoodianos. E isso vai além do cinema de arte”, explica Sousa. “As franquias já têm distribuição garantida, mas, no mercado onde uma empresa produz e outra distribui, Cannes continua sendo uma Meca.”
Ela observa que o prestígio internacional também repercute no mercado interno:
“Pode parecer colonial precisar dessa validação externa, mas também é natural. As pessoas pensam: ‘Se está chamando a atenção de tanta gente, deve ser interessante’.”
Burburinho como estratégia
A distribuição é uma das etapas mais determinantes da cadeia produtiva do audiovisual, afirma a pesquisadora Hadija Chalupe da Silva, professora de Cinema e Audiovisual da ESPM Rio e autora do livro O Filme nas Telas — A Distribuição do Cinema Nacional.
Em sua pesquisa, Silva propôs quatro modalidades principais de comercialização de filmes no Brasil: grande lançamento, lançamento médio, lançamento de nicho e filme para exportação.
Em sua pesquisa, Silva propôs quatro modalidades principais de comercialização de filmes no Brasil: grande lançamento, lançamento médio, lançamento de nicho e filme para exportação. Apesar de O Agente Secreto ter forte potencial para bilheterias expressivas no Brasil, a sua trajetória internacional já o posiciona como um filme de exportação bem-sucedido.
“Quando um filme brasileiro consegue essa visibilidade em Cannes, ele passa a ser visto de outra forma dentro do próprio país”, explica Hadija. “A chancela internacional contribui para atrair espectadores e ampliar a sua circulação no mercado interno, que, muitas vezes, é mais restrito aos blockbusters.”
Ela destaca que o burburinho gerado nas redes sociais e na imprensa internacional é uma das estratégias mais eficazes para consolidar o filme na memória afetiva e no radar do público antes mesmo da estreia comercial.
“Hoje, é fundamental que a campanha de lançamento comece muito antes da chegada aos cinemas. O tapete vermelho, os memes, os vídeos virais e as matérias publicadas fazem parte de um mesmo esforço de marketing integrado”, afirma.
O sucesso de O Agente Secreto em Cannes consolida a posição de Kleber Mendonça Filho como um dos principais cineastas brasileiros da atualidade, com uma trajetória consistente no circuito internacional. Além disso, reforça a relevância da produção cinematográfica nordestina, que tem ganhado cada vez mais protagonismo nos últimos anos.
“O cinema nordestino vive um momento de grande vitalidade, com filmes que dialogam com questões locais, mas que também possuem apelo universal”, observa Ana Paula Sousa. “O Agente Secreto é mais um exemplo dessa potência criativa.”
A escolha de Recife como cenário e personagem do filme reforça essa dimensão. “É uma cidade que aparece não apenas como pano de fundo, mas como elemento central da narrativa”, comenta Sousa. “Isso também dialoga com a tradição do cinema de Kleber, sempre muito ligado ao território e à memória.”
Ainda não há uma data oficial para a estreia de O Agente Secreto nos cinemas brasileiros, mas a previsão é que o lançamento aconteça no segundo semestre de 2025. A Vitrine Filmes, responsável pela distribuição nacional, deve anunciar o calendário em breve. Enquanto isso, a expectativa é de que o filme continue a percorrer outros festivais internacionais e acumule ainda mais reconhecimento antes de chegar ao público brasileiro.
Em entrevistas após a cerimônia de premiação em Cannes, Kleber Mendonça Filho declarou que O Agente Secreto foi um filme “difícil” de realizar, mas que a experiência foi “feliz”. “Foi um processo longo, exigente, mas ao mesmo tempo muito recompensador”, afirmou o diretor. “Estou emocionado com a recepção que o filme teve aqui em Cannes e ansioso para que o público brasileiro também possa assisti-lo em breve.”
Wagner Moura, por sua vez, dedicou o prêmio de melhor ator à equipe do filme e à cultura brasileira. “Esse prêmio é um reconhecimento não apenas do meu trabalho, mas de toda uma equipe que se dedicou intensamente para fazer esse filme acontecer”, disse o ator em seu discurso.
O triunfo de O Agente Secreto no Festival de Cannes de 2025 marca um momento histórico para o cinema brasileiro, reafirma o talento de Wagner Moura e de Kleber Mendonça Filho, e celebra a força cultural de Recife e do Nordeste. A presença do frevo na Croisette, a aclamação da crítica internacional e os contratos de distribuição fechados mostram que o filme já conquistou seu espaço como um dos grandes destaques do ano no cinema mundial. Agora, a expectativa se volta para a estreia nos cinemas brasileiros e, quem sabe, para uma futura campanha rumo ao Oscar.
Com informações do G1.


