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Fogo que não se apaga: Os bastidores das quadrilhas juninas de Salvador

Foto: Reprodução/Redes sociais

Durante o São João, a capital baiana abre espaço para o colorido do forró dançado pelas quadrilhas juninas. As coreografias sincronizadas dos grupos de dança encantam o público que escolhe celebrar o período em Salvador, cidade da segunda parada do projeto “São João da Bahia – Fogo que Não se Apaga”.

Explorando a diversidade dos tradicionais festejos juninos, a cobertura especial do Portal Umbu se aprofundou nesta que é uma das manifestações culturais mais representativas do período, mantida por centenas de grupos que rememoram as raízes das danças de salão europeias trazidas ao Brasil no século XIX.

Oficializada como Manifestação da Cultura Nacional por meio da lei 14.900, sancionada pelo presidente Lula dia 24 de junho de 2024, a quadrilha junina conta com mais de 50 grupos localizados em diversos territórios da Bahia. A dança é um dos principais atrativos da época, tanto para os moradores da capital, quanto para os visitantes de outras cidades e de outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. 

Conforme levantamento apresentado pela Secretaria de Turismo (Setur-BA) em julho de 2024, a participação de turistas nos festejos de Salvador cresceu 2,4%, sendo o São João o principal motivo para visitar a capital para 31% dos entrevistados. Os dados apontam para uma consolidação da cidade como destino turístico no período. Conforme dados oficiais, no ano passado, aproximadamente R$2 bilhões foram movimentados no estado.

Com 2.417.678 habitantes, conforme dados do IBGE 2022, a capital baiana tem, costuma ter, no protagonismo da dança,  artistas nascidos em bairros periféricos que, assim como os moradores de diferentes partes do estado, participam do já tradicional Campeonato Estadual de Quadrilhas que acontece na Praça da Revolução, em Periperi, bairro do Subúrbio Ferroviário da capital.

Foto: Reprodução/Redes sociais

Segundo a Federação Baiana das Quadrilhas Juninas (Febaq), para esta edição da festa estão confirmados mais de cinco concursos espalhados pelo estado, incluindo nas cidades de Antas, Nova Soure, Inhambupe, Rio Real, Euclides da Cunha, Tucano e Casa Nova.

Entre as tradicionais equipes que levam o ritmo para frente e todo ano participam das competições, está a quadrilha Forró do ABC, veterana nas festas do estado baiano. Segundo os organizadores, dançar é a concretização de um desejo cultivado ao longo de meses de ensaio duro, rifas e eventos de arrecadação. 

Conhecida em todo o Brasil, a Forró do ABC carrega em sua trajetória a história de 43 edições do São João. Em sua última participação, o grupo conquistou o título de Campeã Baiana de 2024 — uma vitória marcada por grandes emoções e celebrações.

“Foi um ano repleto de emoções. Perdemos um dos nossos membros mais importantes e enfrentamos algumas dívidas. Além disso, tínhamos um histórico de ficarmos sempre no quase; frequentemente, batíamos na trave e não conseguíamos o que desejávamos. Porém, em 2024, quando saiu o resultado, eu caí e só conseguia chorar de emoção. Foi um sentimento que tomou conta de todo o grupo”, conta Pitágoras Rojão, diretor-executivo da Forró do ABC.

Com os louros da extensa trajetória, Pitágoras conta que o preparo da equipe começou um ano antes. “Quando termina um São João, começamos a pensar no outro. Pra gente, nem dá para dizer quando o São João começa, porque ele nunca termina. São ciclos sem fim”

Morador do bairro Itapuã, ele reforça a importância de resgatar os brincantes — nome dado aos dançarinos do grupo — para a folia do novo ano e destaca o forte senso de coletividade presente nos grupos juninos.

Foto: Reprodução/Redes sociais

“A gente começa os ensaios no mês de outubro. Se for ano eleitoral, às vezes, empurramos para novembro. Dividimos os ensaios em etapas que chamamos de pré-produção, porque todo ano acabamos perdendo algumas pessoas do grupo. Então, esse é o momento de ir atrás delas de novo, bater na porta, fazer um convite, uma ligação e trazê-las para a quadrilha.” 

Atualmente, a Forró do ABC tem 40 casais e cobra uma mensalidade de R$1.500 de cada quadrilheiro para cobrir os custos com figurinos, locomoção, aluguel e pagamento da equipe de apoio. O Diretor Executivo conta que, em muitos casos, “é necessário organizar rifas, feijoadas e eventos fechados” para arrecadar verba e conseguir quitar as contas. 

Miguel Henrique, 27, se tornou membro do grupo em 2018 e se dedica às ações de arrecadação do grupo. “As pessoas acham que geralmente a gente recebe para estar ali, mas, na verdade, a gente paga, mas é porque nos amamos, não podemos deixar esse movimento cair nunca, é lindo de viver, de se estar dançando”, conta o morador da Fazenda Grande do Retiro.

>> Leia também: Fogo que não se apaga: Senhor do Bonfim mantém viva a tradição do São João no coração da Bahia 

O brincante compartilha que participar de uma quadrilha junina “é uma experiência louca, divertida, séria, uma mistura de sentimentos”, e que sobretudo é um espaço para “livrar muitas pessoas do caminho errado”. “Primeiramente, a gente se doa. A construção é linda, do início ao fim […] Antes de eu entrar, algumas pessoas já diziam que o Forró do ABC era uma família incrível — e realmente é”.

Foto: Reprodução/Redes sociais

“Se você gosta de arte, ama a dança, é como ver um arco-íris: a cada dia você enxerga as cores brilhando e isso faz você se apaixonar ainda mais. Além disso, o movimento junino te livra de muitas coisas. Ele resgata pessoas de caminhos e lugares onde elas não deveriam estar. Eu já vi gente indo por um caminho errado e sendo transformada por esse meio”, lembra Miguel.

Para 2025, é esperado um crescimento de 25% no  número de visitantes durante o São João no estado, conforme estimativa da Setur-BA. Em 2024, foram 1,7 milhão de pessoas. 

DA IDEIA ÀS CONFECÇÕES 

Os figurinos são peça-chave no espetáculo de cores promovido pelas quadrilhas juninas. Para a missão de confeccionar mais de 500 roupas em poucos dias, Ednalva Marques, 52, convoca a irmã, o esposo, a filha e outras costureiras para ajudar na produção das peças que compõem o visual das quadrilhas.

“Comecei a costurar ainda menina, fazendo roupas de boneca do jeito que via minha mãe, que também era costureira, fazer. Na adolescência, passei a confeccionar alguns figurinos para o grupo de dança do qual eu fazia parte”, conta Ednalva, que também é professora de dança. “E aí surgiu a oportunidade de eu costurar o figurino para uma quadrilha”, recorda a moradora do bairro da Liberdade.

“Era eu quem fazia tudo, escolhia o tecido, os aviamentos e a costureira”. E foi a partir dessa experiência que, desde 2011, a moradora do bairro da Liberdade passou a confeccionar os figurinos. “Montei meu ateliê para atender às demandas das quadrilhas. Comecei costurando com uma máquina convencional e hoje já são oito máquinas aqui no espaço”, conta. 

Foto: Reprodução/Redes sociais

Diante da complexidade das roupas, a profissional destaca que o ideal seria receber as encomendas com pelo menos um mês de antecedência — mas, na prática, a realidade é bem diferente.

“Teoricamente, precisaríamos de um mês e meio para fazer uma quadrilha, mas, na prática, a gente tem dez dias, quinze dias, até uma semana para montar um figurino de 20 a 40 pares. As quadrilhas têm dificuldade de conseguir verba para a confecção do figurino. E quando o dinheiro chega, é essa pressão em cima da gente. E esse é o nosso desafio de trabalhar dia e noite para fazer essa produção”, conta. 

Este ano, o ateliê de Ednalva é responsável por três grupos de quadrilhas e por sete escolas do Recôncavo, totalizando aproximadamente 580 peças. Essas tarefas estão divididas entre seis pessoas, que se dedicam às etapas de corte, costura e finalização, com o objetivo de entregar tudo até o dia 15 de junho. 

Foto: Reprodução/Redes sociais

“Este ano estamos com as quadrilhas Fogueira Santa, Dançart, Caipiras da Mata e Capelinha do Forró. Com a produção de todas essas, já cheguei a faturar, em média, R$50 mil”, contou. 

Diante dos preparativos para 2025, as apresentações das quadrilhas juninas em Salvador ainda não têm data definida e a Prefeitura do município encontra-se na fase de contratação das atrações.

Assista agora:

Continue de olho na jornada do Portal Umbu pela diversidade das celebrações juninas. Acompanhe nosso vlog nas redes sociais no perfil @portalumbu e assista ao vídeo completo com mais informações em nosso canal do Youtube.

Texto por: Bruna Rocha

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