A criação deste novo equipamento é um marco no Complexo Cidade da Música, que visa solidificar Salvador como a capital mundial da música

O Maestro Letieres Leite, que faleceu em 2021, ganhará uma homenagem da prefeitura de Salvador. A Escola de Música e Artes e a Sala de Espetáculos ganharão o nome do músico. A criação deste novo equipamento é um marco no Complexo Cidade da Música, que visa solidificar Salvador como a capital mundial da música.
A homenagem a Letieres Leite se dá não só pela sua atuação fundamental na construção da história da música feita em Salvador, a exemplo da criação da Orkestra Rumpillezz, que funde as matrizes percussivas do candomblé com o jazz, e o Rumpilezzinho, laboratório musical e socioeducativo voltado para jovens músicos, mas, sobretudo, pelo seu trabalho na criação do método Universo Percussivo Baiano (UPB).
A metodologia é fruto de mais de 30 anos de estudos sobre a presença sonora de elementos de matriz africana na música produzida na diáspora negra nas Américas e, particularmente, no Brasil.
O maestro e educador sistematizou ferramentas de ensino tendo como diretriz e base, o legado musical constituído pelas populações negras nas diásporas africanas e a consciência de que a música popular brasileira se estrutura a partir das suas raízes negras.
Como disse Letieres: “A proposta é estudar a música popular de todos os gêneros, do choro, samba e baião, com um aprofundamento nas questões rítmicas. E uma das maneiras mais seguras é nos apoderarmos das ferramentas e formas de como essa música é praticada na sua origem, dentro do terreiro, nas ruas, nos blocos; trazer essa tecnologia e metodologia para dentro dos lugares de estudo. Porque a música de cultura africana tem um rigor científico sim, só que dentro de outras normas”.
Reconhecido internacionalmente, o método UPB, além de aplicado no programa social Rumpilezzinho, serve também como objeto de pesquisa de publicações acadêmicas na Universidades Federais da Bahia (UFBA) e do Recôncavo da Bahia (UFRB), e integra parte do debate sobre o pensamento e ensino de música no Brasil e exterior, figurando como referência em importantes espaços/organismos da música, como a Orquestra Jovem Tom Jobim (São Paulo), Artur O’Farril & AfroLatin Jazz Orchestra (EUA/México) a Berliner Junged Jazz Orchestrer (Alemanha), entre outros.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, destaca o novo cenário cultural, educativo e musical que a cidade se encontrará com esses dois novos equipamentos. “Este projeto representa um marco no fortalecimento da economia criativa da nossa cidade e faz uma justa homenagem ao saudoso Maestro Letieres Leite, que tanto contribuiu para a cultura musical de Salvador e do Brasil. A Escola de Música e Artes será um verdadeiro celeiro de talentos, proporcionando aos jovens de Salvador as ferramentas necessárias para desenvolverem suas habilidades e se destacarem no cenário musical. Quando entregarmos este projeto, teremos ali naquela região o maior quarteirão cultural do país, se somando a outros equipamentos, como a Cidade da Música e a Casa das Histórias e o Arquivo Público Municipal. Então, neste novo equipamento cultural que entregaremos para a cidade, nada mais justo do que reconhecer e exaltar quem tanto contribuiu para a nossa cidade como Letieres Leite”, afirmou.
A Escola de Música e Artes Letieres Leite passa, assim, a ser também a casa das orquestras afrosinfônicas, um elemento único de força e identidade da cultura musical de Salvador, com uma metodologia própria de ensino, desenvolvida também junto a Ubiratan Marques, maestro da Orquestra Afrosinfônica, e Fabrício Mota, da IFÁ.
O espaço de formação reunirá renomados professores de música do Brasil, acolhendo estudantes baianos e de fora do país, interessados em aprofundar conhecimentos na base da música afro-baiana, bem como em outros aspectos do mercado musical, como pós-produção, área técnica, produção executiva e composição audiovisual.
Para o titular da pasta de Cultura e Turismo, Pedro Tourinho, a homenagem a Letieres é uma representação única do impacto do maestro para a música de Salvador e da Bahia. “Abraçar Letieres Leite, com todo seu conhecimento e seu trabalho, numa Escola de Música que tem tudo para ser uma das mais importantes do mundo, é um privilégio que apenas Salvador tem. A Música feita na Bahia deve muito a Letieres, e com a Escola e a Sala de Espetáculos teremos seu legado garantido também para as próximas gerações”, pontua.
Letieres Leite
Apaixonado pela cultura baiana, Leitieres dos Santos Leite teve o primeiro contato com a percussão através de aulas de música do projeto de orquestras afro-brasileiras desenvolvido por Emilia Biancardi, sob a regência do mestre Moa do Katendê.
Em 1985, quando foi morar em Viena, na Áustria, passou por diversos projetos que mesclavam o jazz, música brasileira e percussão, enriquecendo assim suas composições, resultando na elaboração de temas já com o estilo que viria a ser a marca da Rumpilezz: composições de sopro e percussão.
Quando voltou ao Brasil em 1995, recomeçou pesquisas sobre o universo percussivo baiano, ao mesmo tempo em que trabalhava na elaboração de arranjos de mais de uma centena de discos de artistas soteropolitanos.
Em 2002, funda a Academia de Música da Bahia, na qual aplica o método de ensino que ele chama de Universo Percussivo Baiano (UPB), aprofundando o trabalho pedagógico focado na rítmica afro-baiana que dá origem a Orkestra Rumpilezz e ao Rumpilezzinho.
O projeto Rumpilezz, já com este nome, começou no Teatro Gamboa, em 2005, onde Letieres promoveu o encontro de músicos da cena instrumental baiana com percussionistas de atabaques, os Alabés.
Em 2006, Letieres criou a Orkestra Rumpilezz, considerado o maior orgulho dos 30 anos de carreira. Além de reger a orquestra, Letieres é o responsável por todo o conceito – figurinos, ambientação – passando pelas composições e arranjos de sopro e percussão. Todo este trabalho foi lançado em 2009 no álbum inaugural Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz.


