Mulheres dominam do marisco, uma das principais da comunidade do Recôncavo baiano

O centenário quilombo Kaonge é uma comunidade majoritariamente feminina. “O último apito, geralmente, é o das mulheres”, diz a moradora Adriana Ferreira Viana, 40. Além de chefes de família, as mulheres são responsáveis por uma das principais forças econômicas do local: o marisco.
O quilombo Kaonge, localizado na cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, tem sua economia baseada na forças da mulheres, que além formarem a maior parte da comunidade, também são responsáveis pela coleta dos mariscos, principal fonte de renda ao lado de ostras, mel, dendê e do xarope de ervas medicinais.
A história de trabalho das mulheres da comunidade, assim como as tradições alimentares, são lembradas por Maria Valdelice Mota Costa, de 98 anos, que nasceu no Kaonge e é a mais antiga das marisqueiras da comunidade. Maria foi levada à Salvador ainda criança, onde foi explorada para trabalhar na casa de uma família.
“Nunca trabalhei de ganho, como empregada de assinar carteira nem nada. Fui dada em Salvador, mas quando me entendi como gente, quebrei o pau e voltei para cá”, contou Valdelice à Folha de São Paulo. “Eu criei meus filhos todos indo para o mangue, na enxada, arrancava mandioca, torrava farinha, ralava mandioca, tudo. Não trabalho mais de enxada porque eles não deixam (…) não nego, sou teimosa”, brincou.
Juvani Nery Viana, de 72, também recorda o plantio da mandioca, assim como da manaíba, para se criar e criar os irmãos. Ela diz que o dendê, cuja palmeira tem origem africana e foi introduzida no Brasil por volta do século XVI, no contexto escravocrata, ainda é uma das principais fontes de subsistência da comunidade. “Vivi de mariscar, de fazer azeite e ir para roça, que eu não sabia fazer nada, porque saí [do quilombo] com meus sete anos”, diz.
Com os mariscos, o procedimento é ir até o local de cultivo no mar. “Chega lá no porto, pega a canoa e vai direto para o lugar de tirar para amassar. Espera a maré encher, aí sobe com a canoa para chegar no porto e carregar para botar nas costas dos animais, para trazerem para cá”, explica. O processo chega a durar dois dias, um para catar e outro para tratar, resultando em uma média de 10 a 20 quilos de marisco.
Juvani é a mais velha de 10 irmãos. Fundadora da escola da comunidade, Cosme e Damião, ela foi responsável pela alfabetização e educação dos vizinhos desde a década de 1970. Para fazer o azeite de dendê, outra atividade importante no quilombo, catam-se os frutos mais maduros, que são cortados e cozidos em um tonel.

“Quando é um bocado 10, 12, 15 cachos, aí bota no canto, despenca e bota um prato por cima para ele amolecer. Com um, dois dias a gente vai catar. Senta todo mundo, bota os netos. Bota no fogo hoje de tarde e amanhã de manhã, levanta de madrugada para pisar”, descreve Juvani. O processo leva mais de 24h, rendendo uma média de 5 a 20 litros de dendê. A quantidade de produtos vendidos depende do rendimento da extração no dia.
A dedicação ao estudo e ao trabalho com o marisco, bem como aqueles produtos dos demais núcleos produtivos locais como a apicultura e o artesanato, é herança passada de pais para filhos. Adriana Ferreira Viana, filha de Juvani, relata como este processo foi importante em sua formação pessoal. “A gente veio ter emprego normal em outros lugares só depois, mas passei a ter autonomia desde pequena, de sete, oito anos, porque minha mãe levava [para os trabalhos]. Passei a seguir elas, ou seja, uma hierarquia que foi passando de geração a geração”.
Hoje, ela também trabalha ensinando na escola do Kaonge, após cursar Serviço Social. “Passei uma temporada em Salvador para dar um retorno para a comunidade. Mas profissão mesmo, a principal, é marisqueira. Depois vem serviço social, pedagogia”, destaca.
Por décadas, o quilombo não teve acesso a direitos básicos. A eletricidade chegou em 2007, enquanto a água encanada, somente em 2013. Sem luz, gerações estudaram à luz de lampião. “Eu ensinei de manhã, de tarde e, depois que passei a ser reconhecida, também comecei a ensinar de noite. Ensinava as pessoas mais velhas das 19h às 21h”, lembra Juvani.
Os produtos do Kaonge são vendidos tanto entre os quilombos como para fora da região. Tupia Nery Viana, 58, irmã de Juvani, se encarrega da comercialização em Salvador há mais de 20 anos, sempre sob demanda. O camarão defumado, o dendê e o siri são alguns dos itens mais vendidos.
“Ela [Juvani] manda 20, 30 litros de mel. Aí eu já deixo aqui reservados frascos de xarope, principalmente em época de chuva”, diz. Segundo ela, as vendas em Salvador geram cerca de R$ 700 por mês. Geralmente, os produtos são enviados pelo Kaonge semanalmente, variando de acordo com o número de pedidos. “É uma forma de ajudar as pessoas de lá da comunidade. Por que o que minha irmã faz é justamente para ajudar o povo, a população de lá. Estamos aqui um para ajudar o outro, então se eu puder fazer a minha parte”.
Uma vez ao ano, nos meses de setembro ou outubro, o Kaonge realiza a Festa da Ostra. A grande feira acontece desde 2009, onde o marisco e demais produções são comercializados.
É um dos principais momentos de turismo e venda das comunidades do Iguape, que reúne 10 quilombos de Maragogipe, seis de São Félix, três de Cruz das Almas, três de Santo Amaro e um de Muritiba, além de outras comunidades do estado.
Segundo as lideranças locais, somada à movimentação gerada pela Festa da Ostra, estima-se que uma média de R$ 70 mil circule na economia local por ano. Além do mercado de fora da região, muitos produtos são comercializados entre os próprios quilombos, como as ostras, o azeite de dendê, além de quiabo, camarão seco, castanha assada e temperos.
A festa deste ano está prevista para as datas de 13, 14 e 15 de outubro.
Fonte: Folha de São Paulo
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