Questão racial é o primeiro fator que impossibilita a presença dessas pessoas dentro dos hospitais e clínicas
Neste Dia do Médico, um cenário que ainda paira no Brasil é a dificuldade em encontrar médicos negros. De acordo com o levantamento Demografia Médica no Brasil 2023, elaborado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB), o país tinha 562.229 médicos em janeiro de 2023. Com informações da Agência Brasil.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) não exige a identificação da cor na hora da inscrição no órgão de classe, de forma que não há contabilização de quantos dos mais de meio milhão de profissionais são negros. Mas há, ao menos, duas formas de perceber que os negros são minoria na categoria. Uma delas é ao observar a cor e o número desses profissionais nos hospitais, clínicas, consultórios e seminários.
Outra forma de medir o abismo entre médicos brancos e negros é ao analisar dados referentes à formação de médicos pelas faculdades.
De acordo com Demografia Médica no Brasil, em 2019, dos novos estudantes de medicina, 69,7% eram brancos, 24,7% pardos, 3,5% pretos e 2,1% indígenas e asiáticos. O levantamento da FMUSP se baseia em informações do Censo de Educação Superior no Brasil, do Ministério da Educação.
Para efeito de comparação, segundo o módulo Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 45,3% da população do país se declara parda, enquanto 10,6%, preta. O IBGE classifica os negros como o somatório de pretos e pardos. Os brancos eram 42,8%.
Para a estudante de medicina Daiane Silva, apesar dos avanços ainda há uma grande dificuldade em encontrar profissionais negros nos hospitais. ”Infelizmente, ainda são poucos os profissionais negros na medicina. Gerando inclusive estranheza para alguns pacientes, que não estão acostumados em ver negros em cargos vistos como ‘elite’ na nossa população”, afirma.
A estudante, que está no décimo período do curso na Universidade Federal da Bahia (UFBA), cita situações em que pacientes negros são surpreendidos por serem atendidos por profissionais que se pareçam com eles. “Em contrapartida, esses mesmos profissionais são recebidos com alegria por outros pacientes, expressando emoções como ‘estou muito feliz de ver uma pessoa que se parece comigo aqui’ e já criando uma conexão e reciprocidade que faz todo atendimento fluir, ratificando a importância da representatividade”.
A dificuldade de pessoas negras encontrarem profissionais de saúde da mesma cor foi a ignição para o dentista Arthur Lima fundar a AfroSaúde, uma startup – empresa inovadora, geralmente apoiada em tecnologia – voltada para unir essas duas pontas. Por meio de uma plataforma na internet, profissionais negros oferecem serviços, enquanto pacientes procuram especialistas.
Para o dentista, não há grande interesse em especialização na saúde de pessoas negras nas faculdades. “Infelizmente, a saúde da população negra não é disciplina presente em muitos cursos de graduação. Quando existe, é por meio de matéria optativa ou projeto de extensão”. O reflexo disso, segundo ele, são “profissionais que se formam sem saber como cuidar da população de um país que é composto por 56% de pessoas negras.”
“Não tem uma literatura, um livro de referência em pele negra no Brasil”, faz coro Cauê, da SBD.
Arthur considera que “essas disparidades e injustiças estruturais afetam o acesso a serviços de qualidade, diagnóstico precoce e tratamento adequado” e lista alguns casos em que a saúde da população negra não recebe o tratamento adequado. “As negras são as que mais sofrem com a violência obstétrica, desde a dificuldade de acesso a um pré-natal de qualidade ao momento do parto e puerpério,” cita.
“São inúmeros casos de negação de anestesia durante o parto por [os profissionais] acharem que as negras são mais resistentes à dor”, diz, acrescentando que o mesmo acontece na odontologia. “Existem muitas pesquisas científicas que abordam sobre como terapias mais invasivas e mutiladoras são oferecidas a pacientes negros comparados aos não negros, pois os profissionais seguem o mesmo pensamento.”
No campo da saúde mental, “são incontáveis casos de traumas por conta da falta de entendimento e acolhimento de profissionais não negros em relação a como o racismo ou o processo de ser uma pessoa negra no Brasil influencia no adoecimento mental,” diz.
Para combater mazelas e evitar a propagação do racismo e outras formas de violência na área médica, a estudante Daiane Silva acredita que a ocupação destes espaços pode colaborar para fortalecer a inclusão. “Se faz necessário investirmos em políticas públicas para que mais pessoas negras ocupem esses espaços e cuidem com olhar atencioso de todos os pacientes”, conclui.



