Registro de internação hospitalar da população negra é 787% maior
De acordo com a pesquisa “Morbidade hospitalar e fatores associados segundo a raça/cor”, segundo capítulo do livro “Negligências e vulnerabilidades: aportes epidemiológicos para a saúde da população negra no Norte-Nordeste do Brasil (volume II)”, as internações hospitalares de população negra foram 787% maiores que as da população branca na Bahia entre 2008 e 2018.
Além da pesquisa, o livro aponta a relação da desigualdade e do racismo como mais impactantes na saúde da população negra.
O estudo traz que, entre as doenças que mais afetam a população negra, estão as crônicas, tais como diabetes e hipertensão, cardiovasculares e respiratórias de forma que as mais prevalentes no período, segundo dados do SUS, foram: as doenças do aparelho respiratório (1.168.789 internações); algumas doenças infecciosas e parasitárias (1.044.296 internações); doenças do aparelho digestivo (856.265 internações); doenças do aparelho circulatório (782.732 internações); e lesões, envenenamentos e outras causas externas (695.401 internações).
A professora do programa de pós-graduação de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Edna Araújo, relata que o artigo foi um dos produtos de dissertação de mestrado de sua orientada Ionara Magalhães, com o apoio na coautoria de Nelson Fernandes, Felipe Souza Nery, Carlos Alberto Lima e Mona Gizelle Nery.
“Nós vemos que, por exemplo, as doenças infecciosas e parasitárias apareceram com grande número de internações. Não era esperado que ainda gerasse tanta internação porque são consideradas doenças da pobreza, como a tuberculose, a hanseníase e as vermes. Isso significa uma exposição demasiada desta população a este tipo de adoecimento. Além disso, as internações do aparelho respiratório na população negra foram oito vezes maior que a população branca”, comenta Edna.
Como causas, ela traz a condição de vida às margens do povo negro. “Essas doenças ocorrem mais predominantemente onde não há um esgotamento sanitário e uma estrutura adequada. Locais que, infelizmente, moram em grande parte a população negra”.
A pesquisadora complementa que existe uma relação, que é um dos principais focos de hipótese dos artigos do livro, entre a desigualdade, o racismo e as saúde. Por isso, os resultados das pesquisas buscam não apenas gerar apenas dados explícitos da atual situação do estado, mas que se tornem base para criação e implementação de políticas públicas para diminuir as desigualdades sociais e raciais no estado e no país.
“Nós sabemos que depois da pandemia ficou mais evidente o quanto o racismo impacta a vida das pessoas, não apenas quando uma discrimina diretamente a outra, mas de uma estrutura e um sistema racista que faz com que as pessoas negras, indígenas e quilombolas tenham menos acessos a serviços de saúde, emprego e renda. Quando fazemos uma comparação com o gênero, as mulheres negras sofrem ainda mais”, afirma.
A professora titular do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), coordenadora do programa integrado Família, Comunidade e Saúde (Fasa) e coautora do livro, Leny Trad, acrescenta, relacionando com sua área mais próxima às ciências sociais, que a doença infecciosa mais prevalente foi a leishmaniose. Ela coordena uma pesquisa no baixo sul da Bahia sobre empoderamento comunitário e estigmas de tratamento.
“É impressionante quando você olha essa área de leishmaniose cutânea, com muita concentração de casos, e encontra situações de precariedade nas moradias e na infraestrutura, inclusive, nos territórios quilombolas da região. Nós identificamos uma relação com uma doença considerada negligenciada, melhor, pessoas e territórios negligenciados, e o perfil delas. Mais de 80% da população, é composta por pretos e pardos, repetindo as mesmas mazelas de outros espaços”.




